A Reserva Federal dos Estados Unidos decidiu a 18 de março manter a taxa de juro de referência no intervalo entre 3,5% e 3,75%, numa decisão aprovada por 11 votos a 1, num cenário que os próprios responsáveis reconhecem ser o mais complexo em anos. A guerra entre os EUA e o Irã, iniciada a 28 de fevereiro, o bloqueio do Estreito de Ormuz e o consequente disparo dos preços do petróleo colocaram a Fed numa posição que poucos bancos centrais alguma vez enfrentaram: inflação a subir por razões geopolíticas ao mesmo tempo que o mercado de trabalho abranda.
"Temos um choque energético de alguma dimensão e duração. Não sabemos qual será", disse Jerome Powell durante a conferência de imprensa que se seguiu à decisão. A frase sintetiza, com rara clareza, o dilema que o banco central americano enfrenta em 2026. Cortar os juros aceleraria o crescimento mas alimentaria a inflação já pressionada pelos preços da energia. Mantê-los freia a actividade económica num momento em que o mercado de trabalho já dá sinais de enfraquecimento. A Fed escolheu a imobilidade — e admitiu que foi a opção mais honesta disponível.
O impacto da guerra nos dados económicos americanos já é visível. A inflação medida pelo índice PCE foi revista para 2,7% em 2026, acima dos 2,4% projectados em dezembro. A core PCE — que exclui energia e alimentação — também subiu nas projecções. O crescimento do PIB, curiosamente, foi ligeiramente revisto em alta para 2,4% este ano, sustentado ainda pela resiliência do consumo interno, mas as perspectivas para 2027 mostram uma desaceleração acentuada, com o crescimento a cair para apenas 0,9%.
O mercado de trabalho americano está a preocupar a Fed mais do que os dados oficiais deixam transparecer. Powell admitiu que a economia americana está num "equilíbrio de crescimento zero do emprego" — uma formulação técnica para dizer que praticamente não estão a ser criados postos de trabalho líquidos. O mês de fevereiro registou uma perda de 92.000 empregos, parcialmente atribuída a condições meteorológicas extremas, mas a tendência mais longa é de arrefecimento claro. "Isto tem um sabor de risco descendente, e não é um equilíbrio particularmente confortável", reconheceu Powell.
A decisão de março foi tomada sob uma pressão política incomum. Trump exigiu publicamente cortes de juros agressivos. A Procuradoria dos EUA chegou a emitir intimações a Powell no âmbito de uma investigação relacionada com a renovação da sede da Fed — um movimento que Powell denunciou publicamente como "pretexto" para pressionar o banco central. Um juiz deu razão a Powell e anulou as intimações, mas a procuradora Jeanine Pirro anunciou recurso. O presidente da Fed falou sobre o assunto nas suas últimas semanas no cargo: "Fiquem fora da política eleita", disse a quem lhe perguntou que conselho daria ao seu sucessor.
O mandato de Powell expira em maio de 2026. Trump nomeou Kevin Warsh, ex-governador da Fed e reconhecido defensor de taxas mais baixas, como sucessor. Os mercados já estão a precificar a mudança: esperam que a Fed corte uma vez no segundo semestre de 2026, provavelmente em outubro, após Warsh assumir o comando. Pelo menos uma governadora, Michelle Bowman — considerada uma das vozes mais hawkish do comité — afirmou ter inscrito três cortes de juros para antes do final de 2026, citando preocupações com o mercado de trabalho.
A próxima decisão da Fed está marcada para 29 de abril. Nessa altura, Powell ainda estará no cargo mas o seu substituto já será conhecido. Os mercados estão a precificar uma probabilidade próxima de zero de um corte nessa reunião. A guerra no Irã, os preços do petróleo e a incerteza geopolítica transformaram os próximos meses no período mais difícil para a política monetária americana desde a pandemia.
O que fica claro é que a independência do banco central — e o equilíbrio entre inflação e emprego — nunca dependeu tanto de decisões tomadas em Teerão, Riade e Washington ao mesmo tempo.
