RESERVA FEDERAL MANTÉM JUROS E POWELL AVISA: A GUERRA NO IRÃ TORNOU A INFLAÇÃO IMPREVISÍVEL (Federal Reserve Interest Rates Iran War Inflation 2026)

 

Federal Reserve interest rates 2026 decision with Jerome Powell warning about inflation uncertainty due to Iran war, global economic risks and rising oil prices.
Com o petróleo acima de 100 dólares e o Estreito de Ormuz bloqueado, a Fed congelou os juros entre 3,5% e 3,75% e admitiu que a próxima reunião de abril pode não trazer qualquer corte. O mandato de Powell expira em maio

A Reserva Federal dos Estados Unidos decidiu a 18 de março manter a taxa de juro de referência no intervalo entre 3,5% e 3,75%, numa decisão aprovada por 11 votos a 1, num cenário que os próprios responsáveis reconhecem ser o mais complexo em anos. A guerra entre os EUA e o Irã, iniciada a 28 de fevereiro, o bloqueio do Estreito de Ormuz e o consequente disparo dos preços do petróleo colocaram a Fed numa posição que poucos bancos centrais alguma vez enfrentaram: inflação a subir por razões geopolíticas ao mesmo tempo que o mercado de trabalho abranda.

"Temos um choque energético de alguma dimensão e duração. Não sabemos qual será", disse Jerome Powell durante a conferência de imprensa que se seguiu à decisão. A frase sintetiza, com rara clareza, o dilema que o banco central americano enfrenta em 2026. Cortar os juros aceleraria o crescimento mas alimentaria a inflação já pressionada pelos preços da energia. Mantê-los freia a actividade económica num momento em que o mercado de trabalho já dá sinais de enfraquecimento. A Fed escolheu a imobilidade — e admitiu que foi a opção mais honesta disponível.

O impacto da guerra nos dados económicos americanos já é visível. A inflação medida pelo índice PCE foi revista para 2,7% em 2026, acima dos 2,4% projectados em dezembro. A core PCE — que exclui energia e alimentação — também subiu nas projecções. O crescimento do PIB, curiosamente, foi ligeiramente revisto em alta para 2,4% este ano, sustentado ainda pela resiliência do consumo interno, mas as perspectivas para 2027 mostram uma desaceleração acentuada, com o crescimento a cair para apenas 0,9%.

O mercado de trabalho americano está a preocupar a Fed mais do que os dados oficiais deixam transparecer. Powell admitiu que a economia americana está num "equilíbrio de crescimento zero do emprego" — uma formulação técnica para dizer que praticamente não estão a ser criados postos de trabalho líquidos. O mês de fevereiro registou uma perda de 92.000 empregos, parcialmente atribuída a condições meteorológicas extremas, mas a tendência mais longa é de arrefecimento claro. "Isto tem um sabor de risco descendente, e não é um equilíbrio particularmente confortável", reconheceu Powell.

A decisão de março foi tomada sob uma pressão política incomum. Trump exigiu publicamente cortes de juros agressivos. A Procuradoria dos EUA chegou a emitir intimações a Powell no âmbito de uma investigação relacionada com a renovação da sede da Fed — um movimento que Powell denunciou publicamente como "pretexto" para pressionar o banco central. Um juiz deu razão a Powell e anulou as intimações, mas a procuradora Jeanine Pirro anunciou recurso. O presidente da Fed falou sobre o assunto nas suas últimas semanas no cargo: "Fiquem fora da política eleita", disse a quem lhe perguntou que conselho daria ao seu sucessor.

O mandato de Powell expira em maio de 2026. Trump nomeou Kevin Warsh, ex-governador da Fed e reconhecido defensor de taxas mais baixas, como sucessor. Os mercados já estão a precificar a mudança: esperam que a Fed corte uma vez no segundo semestre de 2026, provavelmente em outubro, após Warsh assumir o comando. Pelo menos uma governadora, Michelle Bowman — considerada uma das vozes mais hawkish do comité — afirmou ter inscrito três cortes de juros para antes do final de 2026, citando preocupações com o mercado de trabalho.

A próxima decisão da Fed está marcada para 29 de abril. Nessa altura, Powell ainda estará no cargo mas o seu substituto já será conhecido. Os mercados estão a precificar uma probabilidade próxima de zero de um corte nessa reunião. A guerra no Irã, os preços do petróleo e a incerteza geopolítica transformaram os próximos meses no período mais difícil para a política monetária americana desde a pandemia.

O que fica claro é que a independência do banco central — e o equilíbrio entre inflação e emprego — nunca dependeu tanto de decisões tomadas em Teerão, Riade e Washington ao mesmo tempo.



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