ARTEMIS II: EM MENOS DE 48 HORAS, QUATRO ASTRONAUTAS VÃO SOBREVOAR A LUA PELA PRIMEIRA VEZ EM 53 ANOS.



Cinquenta e três anos depois de Eugene Cernan deixar a última pegada humana na superfície lunar, em Dezembro de 1972, a humanidade está a horas de enviar novamente astronautas ao encontro da Lua. A missão Artemis II da NASA, o primeiro voo tripulado do programa que ambiciona devolver os seres humanos ao satélite natural da Terra e preparar a expansão para Marte, tem lançamento marcado para o dia 1 de Abril de 2026, às 19 horas e 24 minutos, hora de Brasília, a partir do Kennedy Space Center, na Flórida. A NASA confirmou que as equipas estão a realizar as preparações finais para o início da contagem decrescente, e que a previsão meteorológica para o dia do lançamento aponta para 80% de condições favoráveis, com as principais preocupações centradas na cobertura de nuvens e na possibilidade de ventos fortes na área. Um número que os gestores de missão receberam com alívio, depois de meses em que o clima e a técnica conspiraram repetidamente contra o calendário.



A chegada a este momento não foi linear. A Artemis II acumulou adiamentos que testaram a paciência das equipas, dos astronautas e do público. A missão estava inicialmente prevista para Novembro de 2024, foi deslocada para Setembro de 2025, depois para Fevereiro de 2026 e finalmente para Março, antes de se fixar na janela de Abril actualmente activa. Cada adiamento teve a sua razão específica, mas dois problemas dominaram os meses mais recentes de preparação. O primeiro foi climático: uma onda de frio intenso na Flórida, em Janeiro de 2026, com ventos que violavam os critérios de segurança para as operações na plataforma, impediu a realização do ensaio geral com combustível líquido dentro do calendário previsto e obrigou ao deslocamento da janela de lançamento. O segundo foi técnico: os engenheiros identificaram vazamentos de hidrogênio líquido no foguete Space Launch System durante o processo de abastecimento, uma questão que exigiu intervenção e ajustes antes que a NASA pudesse declarar o sistema operacional. A 4 de Fevereiro, o ensaio geral com combustível foi concluído com sucesso, com a resolução do vazamento de hidrogênio, o reaperto de uma válvula associada à pressurização da escotilha da Orion e o ajuste de problemas nos canais de comunicação de áudio entre as equipas em solo. Mais recentemente, a 20 de Março, uma substituição necessária de um chicote eléctrico no sistema de terminação de voo do estágio central obrigou a um breve atraso adicional no posicionamento do foguete na Plataforma de Lançamento 39B, que foi concluído a 27 de Março. Com o foguete agora na plataforma, o horizonte finalmente parece livre.


A missão Artemis II levará quatro astronautas numa viagem de aproximadamente dez dias ao redor da Lua. O comandante Reid Wiseman, o piloto Victor Glover e a especialista de missão Christina Koch, todos da NASA, e o especialista de missão Jeremy Hansen, da Agência Espacial Canadiana, formarão a primeira tripulação humana a sobrevoar a Lua em mais de meio século. A inclusão de Jeremy Hansen, cidadão canadiano, como membro da tripulação é em si mesma um marco histórico: é a primeira vez que um astronauta não norte-americano participa numa missão lunar, reflectindo o carácter internacional que a NASA quis imprimir ao programa Artemis. Christina Koch, por seu lado, será a primeira mulher a voar ao redor da Lua. A composição da tripulação não é apenas simbolicamente poderosa: é também cientificamente relevante. Hansen e Koch trarão perspectivas e dados fisiológicos distintos dos que dominaram o arquivo médico espacial das missões Apollo, contribuindo para a compreensão dos efeitos do voo em espaço profundo sobre corpos com diferentes características biológicas.

A trajectória da missão segue um padrão que os engenheiros designam de livre de retorno híbrida, uma arquitectura de voo que, em caso de falha crítica dos sistemas de propulsão, permitiria à nave regressar à Terra sem necessidade de accionamento adicional de motores. Após o lançamento, os astronautas passarão os primeiros dias em órbita terrestre a testar de forma sistemática todos os sistemas críticos da nave Orion antes de aceitar o prosseguimento em direcção à Lua. A viagem entre a Terra e a Lua durará aproximadamente quatro dias, com o módulo de serviço da Orion, construído pela Agência Espacial Europeia, a fornecer a propulsão necessária para colocar a nave na trajectória correcta. No ponto de maior distância, a nave atingirá cerca de 370 000 quilómetros da Terra, ultrapassando a órbita lunar e aproximando-se do lado oculto da Lua, região que não é visível da Terra e que nunca foi sobrevoacada por humanos. A trajectória em forma de oito aproveitará a gravidade conjunta da Terra e da Lua para trazer a nave de volta de forma natural, com reentrada na atmosfera terrestre a alta velocidade e temperatura, terminando com o pouso da cápsula no Oceano Pacífico, onde as equipas de resgate da NASA e do Departamento de Defesa americano aguardarão.

Durante o sobrevoo, a tripulação conduzirá um conjunto de experiências científicas de grande relevância para o futuro da exploração espacial humana. A investigação AVATAR, que utiliza dispositivos orgânicos em chip para estudar os efeitos da radiação aumentada e da microgravidade sobre a saúde humana a nível celular, representa uma das abordagens mais inovadoras ao estudo da biologia espacial já incluídas numa missão tripulada. Os dados recolhidos pela Artemis II sobre os efeitos do ambiente de espaço profundo sobre o organismo humano, incluindo a exposição a radiação cósmica galáctica e a partículas solares a distâncias além da protecção do campo magnético terrestre, serão determinantes para o desenho dos sistemas de protecção e dos protocolos médicos das missões futuras, nomeadamente a Artemis III, prevista para 2027 com objectivo de pouso no polo sul lunar, e as missões de longa duração a Marte que a NASA projecta para a década de 2030.


O custo do programa Artemis é uma dimensão que o escrutínio público não tem deixado de acompanhar. Uma auditoria do Gabinete do Inspector-Geral da NASA estimou que o programa como um todo, incluindo o desenvolvimento do foguete SLS, da cápsula Orion e da infraestrutura de lançamento, custou 93 mil milhões de dólares até 2025. Cada lançamento do SLS tem um custo estimado em mais de dois mil milhões de dólares, um valor que os críticos do programa utilizam para questionar a sustentabilidade do modelo. A NASA e os seus defensores respondem que o programa Artemis não é apenas um regresso à Lua mas o estabelecimento de uma infraestrutura permanente de exploração do espaço profundo, que inclui a estação Gateway em órbita lunar, a desenvolver nas missões Artemis IV e seguintes, e que servirá de ponto de apoio para as missões a Marte. O investimento, argumentam, não deve ser lido apenas em função de uma única missão mas do legado tecnológico, científico e geopolítico que está a construir.

A NASA publicou na madrugada de domingo, 29 de Março, a sua actualização mais recente sobre as preparações finais, confirmando que as equipas no Kennedy Space Center estão a iniciar as actividades de contagem decrescente para o lançamento de 1 de Abril. A previsão de 80% de condições meteorológicas favoráveis é encorajadora, embora os gestores de missão sublinhem que a monitorização continuará até ao momento do lançamento, com decisão final sobre a tentativa a ser tomada na manhã de 1 de Abril. Se o clima não permitir o lançamento nessa data, a NASA dispõe de seis janelas adicionais: 2, 3, 4, 5 e 6 de Abril, e uma última janela a 30 do mesmo mês, antes de a geometria entre a Terra e a Lua fechar esta oportunidade de lançamento.


Para a humanidade, que cresceu a olhar para a Lua como um destino que foi tocado uma vez e depois abandonado, a Artemis II é algo mais do que uma missão de teste de sistemas. É a promessa, concreta e agendada, de que o capítulo seguinte da exploração do cosmos começou. E começa no dia 1 de Abril de 2026, às 19 horas e 24 minutos, com quatro pessoas dentro de uma cápsula apontada ao céu.


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