Donald Trump usou um discurso em horário nobre na quarta-feira à noite, 1 de abril, para se dirigir pela primeira vez à nação americana sobre a guerra com o Irã, agora no seu 33º dia. A mensagem foi dupla e contraditória: o presidente garantiu que os objectivos militares estão "quase completos" e que a operação terminará "muito em breve" — mas prometeu ao mesmo tempo ataques "extremamente duros" nas próximas duas a três semanas. "Vamos trazê-los de volta à Idade da Pedra onde pertencem", disse Trump, num tom que deixou analistas e mercados mais preocupados, não menos.
A guerra, que começou a 28 de fevereiro com a operação denominada "Epic Fury", já custou a vida a 13 militares americanos e feriu outros 348, segundo o Pentágono. Do lado iraniano, a organização Human Rights Activists News Agency contabiliza pelo menos 3.519 mortos desde o início dos bombardeamentos. O Irã mantém o Estreito de Ormuz bloqueado — a artéria por onde passa 20% do petróleo mundial — e continuou a disparar mísseis balísticos e drones contra países do Golfo durante a madrugada desta quinta-feira.
Trump justificou o ataque afirmando que o Irã estava a reconstruir o seu programa nuclear numa nova localização, depois de a operação anterior do ano passado ter destruído as instalações originais. "Obliterámos completamente esses sítios nucleares. O regime tentou reconstruir o seu programa numa localização totalmente diferente", disse. O presidente declarou que a marinha iraniana "está destruída", a força aérea "em ruínas" e que "a maioria dos seus líderes, terroristas, está morta" — incluindo o Supremo Líder Ali Khamenei, falecido durante o conflito.
Os mercados reagiram de imediato. Os futuros do S&P 500 caíram 0,75%, os do Nasdaq perderam 1% e os do Dow Jones recuaram mais de 310 pontos logo após o discurso. O petróleo Brent saltou de 99 para 106 dólares por barril. Os preços da gasolina nos EUA já subiram mais de 30% desde o início da guerra, ultrapassando os 4 dólares por galão em média — um número politicamente sensível que está a pressionar fortemente a popularidade de Trump.
O presidente aproveitou o discurso para atacar os aliados da NATO, dizendo que os países que dependem do petróleo do Médio Oriente deviam "ter coragem" e proteger o Estreito de Ormuz por conta própria. Trump confirmou que está a considerar a saída dos EUA da aliança militar, uma declaração que ontem causou alarme nas capitais europeias. O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, está previsto visitar a Casa Branca na próxima semana.
O senador Mark Warner, vice-presidente do Comité de Inteligência do Senado, criticou duramente o discurso. "O discurso do presidente Trump esta noite fez pouco para responder às perguntas mais básicas que o povo americano merece quando a nossa nação está envolvida num conflito custoso e perigoso com o Irã", disse o democrata, acrescentando que a guerra está a fazer subir os preços da gasolina, do gasóleo, dos fertilizantes e do alumínio "com consequências que vão continuar a propagar-se pela economia durante muito tempo".
O Irã rejeitou todas as afirmações de Trump e o presidente iraniano Masoud Pezeshkian publicou uma carta aberta ao povo americano perguntando se esta guerra estava verdadeiramente a servir o princípio "America First". Teerão garantiu que continuará a combater enquanto os ataques americanos e israelitas prosseguirem.
Esta manhã, os mercados asiáticos abriram em queda. O Nikkei perdeu 1,4%, a bolsa sul-coreana caiu 2,82% e Hong Kong abriu 0,5% em baixo. A guerra que Trump prometeu seria rápida entra no segundo mês — e ainda não tem data de fim à vista.
