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| Em negociações exclusivas com a Chevron e o fundo Engine No. 1, a Microsoft prepara a maior aposta individual da história no fornecimento de energia dedicada à inteligência artificial |
A Microsoft está em negociações exclusivas com a gigante petrolífera Chevron e o fundo de investimento Engine No. 1 para construir uma central elétrica a gás natural no oeste do Texas, com um custo estimado de 7 mil milhões de dólares. A notícia, avançada pela Bloomberg na véspera de hoje, representa mais um capítulo da corrida sem precedentes pelo fornecimento de energia para os centros de dados que alimentam a inteligência artificial e sinaliza que o sector tecnológico se tornou também um sector energético.
A central, a ser erguida perto de Pecos City, no coração da Bacia Pérmica, a maior região produtora de petróleo e gás natural dos Estados Unidos, terá uma capacidade inicial de 2.500 megawatts, o equivalente à produção de mais de dois reactores nucleares típicos. Com possibilidade de expansão até 5.000 megawatts, o projecto pode tornar-se uma das maiores instalações do género no país. O objectivo é fornecer electricidade de forma exclusiva a um grande campus de centros de dados da Microsoft, sem depender da rede pública algo que Trump exigiu às empresas tecnológicas no seu discurso ao Congresso.
A escolha do Texas não é acidental. A Bacia Pérmica produz gás natural em quantidades tão elevadas que frequentemente supera a capacidade de transporte por gasoduto, obrigando os produtores a queimar o excedente o chamado flaring. Ao instalar uma central elétrica directamente na fonte, a Chevron transforma esse gás desperdiçado em electricidade de alto valor. Para a Microsoft, garante um fornecimento contínuo e previsível, imune às fragilidades da rede pública americana, que há anos luta com insuficiência de capacidade instalada.
Este projecto não existe no vazio. A Microsoft está projectada para gastar até 146 mil milhões de dólares em despesas de capital relacionadas com IA no seu ano fiscal de 2026 o maior ciclo de investimento em infraestrutura tecnológica da história de qualquer empresa. Na semana passada, foi também noticiado que a companhia arrendou um centro de dados de 700 megawatts no Texas que estava originalmente a ser desenvolvido para a Oracle e a OpenAI. Em paralelo, a Microsoft tem estado a integrar agentes de IA directamente no Microsoft 365 e a expandir a sua parceria com a Anthropic através do Cowork.
O projecto com a Chevron e a Engine No. 1 representa uma viragem estratégica para o sector tecnológico como um todo. Durante anos, empresas como a Microsoft, a Google e a Meta prometeram alimentar as suas operações com energia renovável. Mas a crescente procura de electricidade pelos centros de dados de IA que exigem disponibilidade permanente sem qualquer tolerância a falhas está a forçar uma reavaliação pragmática. A energia solar e eólica, intermitente por natureza, não consegue, por agora, garantir as chamadas "cinco noves" de fiabilidade que os workloads de IA exigem. O gás natural surge como a ponte inevitável.
O parceiro financeiro Engine No. 1 o mesmo fundo que ficou famoso por forçar mudanças no conselho de administração da ExxonMobil em 2021 através de pressão ambiental — destaca-se aqui pela ironia de agora apostar na construção de uma nova central a gás. A empresa diz explorar tecnologias de captura de carbono para mitigar o impacto ambiental do projecto.
Se as negociações chegarem a acordo, a construção poderá arrancar ainda em 2026, com as primeiras turbinas a ser entregues no final do ano e o projecto operacional até 2027. A GE Vernova, especialista em turbinas industriais, foi já identificada como fornecedor de equipamento. Pelo menos outras nove grandes propostas de centros de dados foram apresentadas por empresas tecnológicas no norte e oeste do Texas nos últimos dois anos, transformando o estado no epicentro da corrida energética da IA.
"A corrida final pela IA passa pela electricidade", escreveu um analista do Futunn esta manhã. A Microsoft parece ter percebido esse recado antes dos concorrentes.
