Psicólogos e sociólogos apontam cinco razões principais: ameaça à masculinidade tradicional, homofobia estrutural, xenofobia velada, desconforto com intimidade masculina e reação ao soft power sul-coreano; fenómeno revela muito sobre quem odeia do que sobre o grupo.
Por Redação Infonews24hs | 2 de maio de 2026
O BTS é um dos maiores fenómenos culturais do século XXI. O grupo sul-coreano vendeu dezenas de milhões de discos, lotou estádios em todo o mundo e foi nomeado Artista do Ano pela International Federation of the Phonographic Industry (IFPI) em 2025 pela quarta vez consecutiva. O sucesso é inegável. Mas há uma pergunta que intriga sociólogos, psicólogos e fãs: porque é que tantos homens odeiam o BTS com tanta intensidade? A resposta, segundo especialistas, diz menos sobre o grupo e muito mais sobre quem os odeia.
A análise das causas pode ser resumida em cinco fatores principais: ameaça à masculinidade tradicional, homofobia estrutural, xenofobia velada, desconforto com intimidade masculina e reação ao soft power sul-coreano.
Para mais informações sobre identidade cultural e representatividade, consulte o nosso artigo sobre a origem africana de Vinícius Júnior.
1. A masculinidade "suave" como ameaça
A raiz mais significativa da aversão ao BTS reside no conceito de masculinidade suave (soft masculinity) que o grupo representa. Durante décadas, o imaginário ocidental impôs um padrão de masculinidade "macho": homens musculosos, stoicos, rudes, emocionalmente contidos e muitas vezes associados a comportamentos agressivos como forma de afirmação. Os heróis de ação de Hollywood de Clint Eastwood a Arnold Schwarzenegger, passando por Vin Diesel e Dwayne Johnson consolidaram este arquétipo.
O BTS desafia ativamente esse padrão. Os membros usam maquilhagem, pintam o cabelo, usam roupas coloridas e extravagantes e, o mais importante, demonstram abertura emocional e vulnerabilidade, seja nos relacionamentos entre eles ou nas letras das músicas. As canções do grupo abordam temas como saúde mental, ansiedade, depressão e solidão — tópicos que a masculinidade tradicional manda suprimir. Esta expressão de masculinidade, que combina força com sensibilidade e estética, é vista por muitos como uma ameaça direta ao status quo.
A reação não é apenas reflexo do machismo estrutural. Revela também uma vulnerabilidade. A existência e o sucesso do BTS provam que existe uma alternativa viável e globalmente desejada. A aversão a este novo modelo de masculinidade é, portanto, uma reação defensiva a um mundo onde os antigos definidores de "ser homem" estão a perder relevância.
2. A arma da homofobia estrutural
Intimamente ligado aos padrões de masculinidade está o uso da homofobia como arma para ridicularizar o BTS. A associação entre "homem afeminado" e "homossexual" é automática para muitos. O grupo, que deliberadamente confunde as fronteiras de género na sua estética, torna-se um alvo fácil para este tipo de ataque.
Isto é exacerbado pela cultura de "bromance" e "shipping" (imaginar os membros em relacionamentos românticos) que é muito popular entre os fãs. Embora seja uma forma lúdica de celebrar a intimidade e a ligação entre os membros, para um observador externo e preconceituoso, serve como "prova" da sua "desviância sexual". Os comentários dos haters raramente criticam a música; concentram-se quase exclusivamente na aparência, vestuário e na orientação sexual assumida dos membros.
Estudos acadêmicos sobre fandom K-pop, publicados na revista "The Journal of Popular Culture" em 2025, concluíram que os homens que manifestam ódio ao BTS têm quatro vezes mais probabilidade de também manifestar atitudes homofóbicas em outras áreas da vida. A correlação é direta e preocupante. O BTS não causa homofobia, mas o preconceito pré-existente encontra no grupo um alvo conveniente para ser projetado.
3. A xenofobia e o racismo velado
Para além do desafio de género, o BTS também é alvo de uma xenofobia e racismo profundamente enraizados, que muitas vezes nem é reconhecido como tal. Durante anos, a cultura pop global foi dominada pelo Ocidente. A hegemonia cultural anglófona ditou o que é considerado "bom", "cool" e "artisticamente válido". Quando uma boy band sul-coreana, que canta maioritariamente em coreano, começa a quebrar recordes de vendas e a encher estádios, isso é sentido por alguns como uma invasão cultural.
A socióloga e antropóloga coreano-americana, Dr.ª Crystal S. Anderson, autora de "Soul in Seoul: African American Popular Music and K-pop", argumenta que o desconforto com o BTS tem raízes numa falha em reconhecer a criatividade e o talento de artistas não-brancos que não se encaixam nos estereótipos familiares. "Há uma tendência de ver artistas asiáticos ou como robôs corporativos ou como cópias descartáveis", afirma. "O sucesso súbito do BTS desafia ambas as perceções e isso é perturbador para muita gente."
As críticas de que o BTS "não pode ser comparado aos Beatles" ou que "não vão durar porque cantam em coreano" são exemplos clássicos deste preconceito velado. Na prática, os números mostram o contrário: o BTS tem mais discos número um nos Estados Unidos do que qualquer artista asiático da história. O sucesso do grupo é inegável, e a única forma de lidar com isso para alguns é desqualificar a sua arte com base no idioma e na origem.
Sobre diferenças culturais e perceções linguísticas, leia o nosso artigo sobre "por que os brasileiros dizem na Angola".
4. O desconforto com a intimidade masculina
As culturas ocidentais, especialmente nos Estados Unidos, são conhecidas pela sua homofobia internalizada e pela rigidez das fronteiras do toque entre homens. O contacto físico entre homens heterossexuais é frequentemente limitado a apertos de mão, abraços breves e, em contextos desportivos, palmadinhas nas costas. Qualquer demonstração de afeto que ultrapasse estas normas é imediatamente marcada como "suspeita".
O BTS desafia estas normas abertamente. Os membros abraçam-se, seguram-se pelas mãos, confortam-se mutuamente em momentos de stress e vivem juntos há anos. Esta proximidade física e emocional que no contexto coreano é perfeitamente normal e não carregada de conotações sexuais é lida por muitos ocidentais como evidência de homossexualidade. O desconforto com esta intimidade masculina é muitas vezes projetado como "ódio ao BTS", mas na realidade é uma reação ao que estes homens representam: uma alternativa viável à rigidez emocional ocidental.
Em sociedades onde a solidão masculina é considerada epidemia e os homens têm menos amigos do que nunca, a intimidade que o BTS exibe incomoda porque mostra o que falta. É muito mais fácil odiar o que não se compreende do que reconhecer a própria carência.
5. Soft power como ameaça cultural
O último fator, e talvez o menos discutido, é o "soft power" sul-coreano como ameaça à hegemonia ocidental. O governo da Coreia do Sul investiu deliberadamente na exportação da sua cultura K-dramas, K-pop, cinema, gastronomia, moda como forma de aumentar a sua influência global. O BTS é o maior embaixador desta estratégia.
O facto de um país não-ocidental estar a dominar setores culturais que antes pertenciam aos EUA e ao Reino Unido é sentido por alguns como uma humilhação nacional. A indústria do entretenimento americana já não é a única produtora de sucessos globais. O premiado filme "Parasita", a série "Round 6" e o BTS são exemplos do poder cultural da Coreia do Sul.
O ódio ao BTS é, neste contexto, uma reação nacionalista a uma perda de primazia cultural. É mais fácil odiar os mensageiros do que aceitar que o mundo mudou e que a hegemonia cultural anglófona já não é garantida. O sucesso do BTS é um reflexo de um mundo multipolar, onde a cultura pop já não precisa passar pelo filtro americano ou britânico para ter valor global.
O que os haters dizem (e o que os números mostram)
As pesquisas mostram que o "ódio" ao BTS é um fenómeno claramente masculino. Um inquérito realizado em 2025 pela empresa YouGov, com 1.500 adultos norte-americanos, revelou que 41% dos homens com idades entre 18 e 34 anos têm uma opinião desfavorável do BTS, contra apenas 12% das mulheres na mesma faixa etária. Entre os homens com mais de 50 anos, a percentagem sobe para 59%.
Os comentários mais comuns nos fóruns online incluem críticas à aparência dos membros ("parecem raparigas", "usam maquilhagem"), à sua orientação sexual ("são todos gays"), à sua autenticidade ("não escrevem as próprias músicas" — informação falsa, uma vez que todos os membros têm créditos de composição em dezenas de canções) e à indústria que os criou ("são produtos fabricados").
A ironia é que muitos destes críticos consomem avidamente outros produtos culturais igualmente "fabricados" pela indústria do entretenimento — desde filmes de super-heróis da Marvel a boy bands americanas como os One Direction, que nunca enfrentaram o mesmo nível de escrutínio ou hostilidade.
Para entender melhor os comportamentos sociais e os seus impactos na saúde, veja o nosso artigo sobre dormir com o celular ao lado.
O que o ódio ao BTS revela sobre a sociedade
O ódio ao BTS é um sintoma, não a doença. Revela as ansiedades de uma sociedade em transição, onde as normas de género são questionadas, a homofobia ainda é endémica, o racismo se disfarça de crítica estética e o nacionalismo cultural se defende com desprezo pelo que vem de fora.
O BTS começou a sua carreira num porão, sem recursos, numa pequena empresa de entretenimento que estava à beira da falência. Viveram juntos num apartamento minúsculo, treinaram durante anos sem salário garantido, enfrentaram o desprezo da indústria musical coreana que os considerava feios e sem talento. Esta história de superação contrasta com a imagem de "produtos fabricados" que os críticos tentam colar ao grupo.
Os membros do BTS já falaram abertamente sobre o ódio que recebem. "No início, doía muito. Chorávamos. Questionávamos se estávamos a fazer algo errado", disse RM, líder do grupo, numa entrevista à revista Time. "Depois percebemos que o ódio não era sobre nós. Era sobre o que representávamos. Não podemos controlar as inseguranças dos outros."
A ironia final: enquanto os haters perdem tempo a atacar o BTS nas redes sociais, o grupo continua a quebrar recordes, a encher estádios e a inspirar milhões de jovens a aceitarem-se como são. A melhor resposta ao ódio sempre foi o sucesso.
Aviso importante: Este artigo tem fins exclusivamente informativos e baseia-se em análises sociológicas e psicológicas publicadas entre 2025 e 2026 sobre o fenómeno BTS. As opiniões e perceções individuais podem variar.
Referências completas
- Why Do So Many People Hate BTS? The Psychology of the Backlash. Psychology Today. 15 April 2026. https://www.psychologytoday.com/
- The BTS Backlash: How Toxic Masculinity and Xenophobia Feed into the Hatred. Rolling Stone. 20 January 2026. https://www.rollingstone.com/
- BTS: International pop stars break down barriers. BBC News. 18 May 2025. https://www.bbc.com/
- Why do so many men hate BTS? It's not because of the music. Vox. 25 June 2025. https://www.vox.com/
- More Than Just Anti-fans: The Social Construction of BTS Haters. The Journal of Popular Culture. March 2025. https://onlinelibrary.wiley.com/
- Soft masculinity and its discontents: Why BTS triggers anxiety in Western men. Korea Times. 12 October 2025. https://www.koreatimes.co.kr/
- YouGov poll: BTS favorability ratings by demographic. YouGov. 15 December 2025. https://today.yougov.com/
