Centenário do intelectual baiano é celebrado com eventos em todo o país; obra sobre globalização, desigualdade urbana e circuito inferior da economia segue atual e inspira novas gerações
Por Redação Infonews24hs | 3 de maio de 2026
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| Milton Santos, um dos maiores intelectuais do Brasil, completaria 100 anos em 3 de maio de 2026. Sua obra sobre globalização e desigualdade segue atual e inspiradora. |
Neste domingo, 3 de maio de 2026, o Brasil celebra o centenário de nascimento de Milton Santos, um dos maiores intelectuais da história do país. Nascido em Brotas de Macaúbas, no sertão da Bahia, em 1926, o geógrafo construiu uma obra que redefiniu a forma de compreender o espaço geográfico, articulando economia, política e sociedade numa crítica contundente às desigualdades produzidas pelo capitalismo globalizado [citation:2][citation:8]. Perseguido pela ditadura militar e exilado por 13 anos, Santos tornou-se referência mundial e o primeiro latino-americano a receber o Prêmio Vautrin Lud, considerado o "Nobel da Geografia" [citation:2][citation:5].
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📚 Uma obra que atravessa o tempo
Ao longo de sua trajetória, Milton Santos publicou mais de 40 obras, abordando temas como urbanização, globalização, desigualdade social e o papel da técnica na organização do território [citation:1][citation:10]. O seu pensamento inovador rompeu com as visões descritivas e naturalizantes que dominavam a Geografia até então, introduzindo uma abordagem crítica que ficou conhecida como Geografia Crítica [citation:8].
Uma das suas ideias mais influentes é a teoria dos dois circuitos da economia urbana. Para Milton Santos, as cidades periféricas se estruturam a partir de dois sistemas interdependentes: um circuito superior, concentrado nas grandes empresas, com alto nível de tecnologia, capital e organização; e um circuito inferior, formado por pequenos comércios e serviços, com menor acesso a recursos, mas altamente adaptável às necessidades da população [citation:2].
A aplicação prática dessa teoria é facilmente observável nas periferias brasileiras. "É muito difícil para as pessoas da periferia deixarem o espaço onde vivem e se deslocarem até o centro para consumir. As populações que vivem na periferia abrem seus próprios comércios, quitandas, mercadinhos, pequenas lojas", explica Livia Cangiano, pós-doutoranda na Universidade de São Paulo (USP) [citation:2].
Para Milton Santos, o espaço nunca foi apenas um palco onde a vida acontece, mas o resultado direto de decisões políticas e econômicas. Isso significa que a distribuição desigual de infraestrutura nas cidades não é acidental, mas fruto de escolhas que privilegiam determinados grupos e territórios [citation:2].
Além disso, o geógrafo formulou o conceito de "meio técnico-científico-informacional", descrevendo como tecnologia, ciência e infraestrutura passaram a moldar o território. Na prática, isso se traduz em regiões altamente conectadas, com redes digitais avançadas, convivendo com áreas onde faltam serviços básicos [citation:2].
O geógrafo francês Jacques Lévy, que participa das comemorações do centenário na USP, destaca que Milton Santos já se dedicava ao estudo dos quadros técnicos na vida humana nos anos 1960, muito antes da revolução digital. "Essa é uma característica de seus estudos que o mantém atual, tanto que o seminário diz que ele é um geógrafo do século 21, porque o seu pensamento é muito relevante até hoje", afirma o professor Jaime Tadeu Oliva, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP [citation:7].
Na mesma linha, a professora Mónica Arroyo, do Departamento de Geografia da USP, ressalta: "Milton Santos é um intelectual com uma busca permanente por entender o mundo e, desse modo, contribuir para sua transformação. Trata-se de um compromisso com o seu tempo, a partir de um campo específico do saber – a Geografia –, mas em permanente diálogo com outras disciplinas e outros saberes" [citation:8].
Seu livro mais conhecido, "Por uma outra globalização", publicado no ano 2000, analisa o fenômeno em três dimensões: como fábula (pelo discurso de integração do mundo), como perversidade (ao aprofundar desigualdades) e como possibilidade (ao apontar alternativas construídas pelas populações periféricas com base na cooperação e na solidariedade) [citation:8].
Sobre a história de instituições que transformaram o conhecimento no Brasil, leia o nosso artigo sobre Harvard.
🎉 Eventos pelo Brasil celebram o legado do intelectual negro
O centenário de Milton Santos está sendo marcado por uma série de eventos acadêmicos e culturais em todo o território nacional, que destacam a atualidade do seu pensamento [citation:1].
Sesc RJ promove ciclo de palestras – O Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi) do Sesc RJ organiza um ciclo de palestras em celebração ao centenário, abordando a obra do geógrafo a partir de uma perspectiva territorializada, reconhecendo o bairro de Madureira, coração do subúrbio carioca, como um espaço vivo de produção de conhecimento [citation:1]. Os encontros acontecem nos dias 9, 16, 23 e 30 de maio, sempre aos sábados, das 15h às 17h30, com entrada franca.
USP realiza seminário internacional – O Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), em parceria com o Departamento de Geografia da FFLCH e o Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da USP, promove entre os dias 4 e 8 de maio o seminário "Milton Santos 100 Anos – Um Geógrafo do Século XXI" [citation:3][citation:7]. O evento reúne pesquisadores do Brasil e do exterior, incluindo o geógrafo francês Jacques Lévy, o sociólogo Miguel de Barros (Guiné-Bissau) e a geógrafa María Laura Silveira (Argentina).
A programação inclui conferências, mesas-redondas, visitas guiadas aos acervos do IEB e da Biblioteca Brasiliana, além do lançamento do livro "A Bahia nos Anos 50: Cidade e Região", o 20º e último volume da Coleção Milton Santos da Editora da USP (Edusp) [citation:7]. O evento é gratuito e terá transmissão ao vivo pelo canal do IEB no YouTube.
Homenagens na Bahia – A Academia de Letras de Ilhéus, da qual Milton Santos foi um dos fundadores em 1959, promove no dia 5 de maio uma sessão especial em sua homenagem [citation:5]. A Academia de Letras da Bahia também realizará uma reunião dedicada ao centenário no dia 7 de maio, na qual será concedida posse simbólica a Milton Santos como membro correspondente [citation:5].
Reconhecimento póstumo – Tramita no Congresso Nacional um projeto de lei para inscrever o nome de Milton Santos no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, reconhecendo suas contribuições como "geógrafo negro e intelectual focado no Brasil e na globalização" [citation:5].
A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) também realizaram, nos dias 27 e 28 de abril, um evento conjunto em homenagem ao centenário [citation:9].
📖 Um legado que ultrapassa os muros da academia
Negro em uma academia predominantemente branca e elitista, Milton Santos enfrentou o racismo estrutural dentro da universidade e nunca se omitiu quando o tema exigia posicionamento [citation:2]. "Ele dizia que o fato de ser um professor universitário não o impediu de viver experiências de racismo. Falava que os negros precisavam ter um esforço muito maior para o seu trabalho ter legitimidade. Mas ele nunca utilizou qualquer vitimização para se tornar um intelectual", relembra a geógrafa Catia Antonia da Silva, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) [citation:2].
Catia, que ingressou na UFRJ nos anos 1980, conta: "A maior parte dos meus colegas na universidade não eram negros. Então, o Milton foi muito importante para a minha formação, não só do ponto de vista cognitivo e técnico, mas também na dimensão humana" [citation:2].
Milton Santos foi eleito "O Brasileiro do Século" em 1999, na categoria Educação, Ciência e Tecnologia, pela revista IstoÉ. Recebeu 19 títulos de Doutor Honoris Causa e prêmios como o Jabuti (1997) e o UNESCO de Ciência [citation:5]. Sua obra permanece vigente e necessária, especialmente para quem busca compreender o Brasil e o mundo a partir das periferias.
Para o geógrafo Billy Malachias, doutorando da USP, o pensamento de Milton Santos "ajuda a explicar o presente" [citation:8]. A professora Mónica Arroyo complementa: "O autor não mede esforços numa teorização sistemática ao interior da Geografia, tornando central a discussão sobre seu objeto central, o espaço geográfico. E, ao mesmo tempo, dedica-se a estar em diálogo aberto e permanente com a filosofia, a história, a economia, a sociologia" [citation:8].
"Colocar a periferia no centro para discutir a hegemonia do poder econômico e político, a racionalidade dominante, a natureza da cooperação internacional, os problemas estruturais", resume Arroyo sobre a atualidade da obra de Santos [citation:8]. "Ao mesmo tempo, essa periferia mostra uma enorme diversidade e sobretudo a existência de relações cotidianas que criam uma cultura própria, resistente, utilizando os lugares como um abrigo e sendo uma base para a construção de um outro futuro" [citation:8].
Neste centenário, o que fica é a certeza de que Milton Santos não apenas decifrou as entranhas do Brasil, como também deixou um roteiro para pensar um futuro mais justo, solidário e verdadeiramente cidadão – um pensamento que permanece mais atual e necessário do que nunca [citation:8].
Sobre a eternização de grandes figuras da cultura e do conhecimento, leia o nosso artigo sobre as estátuas de ídolos brasileiros e mundiais.
Aviso importante: Este artigo tem fins exclusivamente informativos. As informações sobre eventos e homenagens ao centenário de Milton Santos são baseadas em fontes públicas e podem ser atualizadas pelas instituições organizadoras.
