Biólogos marinhos detectaram cocaína, cafeína e analgésicos no sangue de quase um terço dos tubarões analisados numa das ilhas mais remotas do Caribe, revelando que a poluição humana chega a ecossistemas considerados intocados
Um estudo publicado no final de março de 2026 na revista científica Environmental Pollution confirmou o que parecia improvável: tubarões que nadam em águas consideradas pristinas das Bahamas têm drogas no sangue. Os investigadores analisaram amostras de 85 exemplares de cinco espécies diferentes perto da Ilha Eleuthera e encontraram substâncias humanas em 28 deles, quase um terço do total.
O estudo foi liderado por Natascha Wosnick, bióloga e professora associada da Universidade Federal do Paraná, no Brasil. A equipa testou os animais para pelo menos 24 substâncias legais e ilegais. Os resultados surpreenderam até os próprios investigadores. A cafeína foi a substância mais detectada. Os analgésicos acetaminofeno e diclofenaco apareceram em vários exemplares. E um tubarão testou positivo para cocaína, com níveis que sugeriam exposição recente.
É a primeira vez na história científica que cafeína e acetaminofeno são detectados em qualquer espécie de tubarão em qualquer parte do mundo. É também a primeira vez que cocaína é encontrada no sangue de tubarões nas Bahamas.
Wosnick explicou como estes predadores chegam a ingerir cocaína. "Eles mordem as coisas para investigar e acabam expostos", disse a cientista à publicação Science News. Os investigadores suspeitam que embalagens de droga perdidas no mar, associadas às rotas de tráfico que atravessam o Caribe, sejam uma das fontes de contaminação. Mas a causa principal é outra, e está mais perto de nós do que parece.
"É principalmente porque as pessoas vão lá, urinam na água e despejam os seus esgotos na água", afirmou Wosnick em entrevista ao Science News. As áreas onde os tubarões foram capturados coincidem com zonas de mergulho e de passagem de cruzeiros turísticos. Os sistemas de tratamento de águas residuais em muitas zonas costeiras e embarcações não estão preparados para filtrar resíduos farmacêuticos e químicos antes de os lançar no oceano.
Os investigadores alertam que o mais preocupante não é a cocaína. "Embora a detecção de cocaína tenda a chamar atenção imediata, a presença generalizada de cafeína e produtos farmacêuticos no sangue de muitos dos tubarões analisados é igualmente alarmante", disse Wosnick em declarações à CBS News. "São substâncias legais, rotineiramente consumidas e frequentemente ignoradas, mas o seu rasto ambiental é claramente detectável."
Os dados mostraram que os tubarões contaminados apresentavam alterações em marcadores metabólicos ligados ao stress e ao funcionamento do organismo. O diclofenaco, por exemplo, está associado a danos renais em animais. Os efeitos a longo prazo nos comportamentos e na saúde das populações de tubarões permanecem por estudar. "A nossa principal preocupação não é um aumento da agressividade em relação aos humanos, mas sim as potenciais implicações para a saúde e estabilidade das populações de tubarões", sublinhou a investigadora.
Este não é o primeiro trabalho de Wosnick sobre o tema. Em 2024, a mesma cientista detectou cocaína no fígado e nos músculos de tubarões ao largo do Rio de Janeiro, no Brasil. O sangue, contudo, reflecte uma exposição mais recente, o que torna os novos resultados ainda mais reveladores.
Os tubarões, no fim, não criaram este problema. Apenas o reflectem.
