Com tarifas mínimas de 10% a 15% sobre todas as importações e alíquotas maiores para rivais estratégicos, Washington redesenha as regras do comércio internacional e coloca mercados, empresas e consumidores em alerta máximo
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, avança com uma das políticas tarifárias mais agressivas da história americana, impondo taxas sobre praticamente todos os países do mundo. A medida, que começou a ser desenhada ainda no início de 2025 com o chamado "Dia da Libertação", está a remodelar as cadeias globais de abastecimento, pressionar a inflação e colocar os mercados financeiros em modo de alerta permanente.
A lógica da Casa Branca é simples na forma, mas de consequências complexas. Uma tarifa-base de 10% passou a incidir sobre todos os produtos importados pelos EUA, com sobretaxas adicionais para os maiores parceiros comerciais. A China chegou a enfrentar alíquotas de 145%. O Brasil, inicialmente na faixa mínima, recebeu posteriormente uma carta de Trump ameaçando uma tarifa de 50%, o que colocou o país provisoriamente na posição de nação mais taxada do mundo.
Mas o sistema não parou de mudar. Em fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos EUA derrubou as tarifas impostas com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência, considerando que Trump extrapolou sua autoridade. A reação dos mercados foi imediata: os índices americanos dispararam após a decisão. Em resposta, Trump anunciou uma tarifa global "temporária" de 10%, depois elevada para 15%, agora apoiada na Seção 122 da Lei de Comércio de 1974, válida por até 150 dias. A guerra comercial entrou numa nova fase, menos previsível do que nunca.
O impacto nos mercados já é visível há meses. Quando Trump anunciou as tarifas recíprocas em abril de 2025, o S&P 500 perdeu mais de 2 biliões de dólares em valor de mercado num único dia. As bolsas europeias recuaram mais de 2%. O petróleo afundou mais de 7%. "O presidente está perdendo a confiança dos líderes empresariais em todo o mundo", alertou o gestor de fundos Bill Ackman, um dos apoiadores de Trump, pedindo a suspensão das tarifas para evitar o que chamou de "inverno nuclear económico".
Para o Brasil e Angola, os efeitos chegam por duas vias. A direta, com taxas mais altas sobre exportações para os EUA. E a indireta, muito mais perigosa: a guerra comercial amplifica a volatilidade global, sobe o dólar frente às moedas emergentes, aumenta a aversão ao risco e contrai o fluxo de investimento estrangeiro. Petróleo, suco de laranja, café e carne bovina brasileiros conseguiram isenções parciais — mas o ambiente de incerteza persiste.
A Organização Mundial do Comércio estima que as novas tarifas americanas podem reduzir o comércio global em até 1% ainda em 2026. A ONU, por sua vez, reviu em baixa o crescimento mundial para 2,7% este ano, abaixo dos 2,8% de 2025, atribuindo a desaceleração directamente ao impacto das medidas de Washington. "Sem uma coordenação política mais forte, as pressões actuais arriscam confinar o mundo numa trajetória de crescimento mais baixo", alertou o organismo.
O consumidor americano, que até 2025 conseguiu escapar da conta, começa agora a senti-la. O JPMorgan estima que as empresas, que vinham absorvendo cerca de 80% do custo tarifário, vão agora repassar essa percentagem para os clientes. Os preços de vestuário e calçados já subiram até 40% em algumas categorias. "Muitos dos nossos clientes realmente não queriam repassar os custos, mas agora estão sendo obrigados a fazê-lo", disse Kyle Peacock, director da Peacock Tariff Consulting.
O mundo está a aprender a viver com a imprevisibilidade como política oficial. Para investidores, exportadores e governos, a única certeza disponível é que, com Trump na Casa Branca, as regras do comércio global podem mudar de um dia para o outro.
