Pela primeira vez em 30 anos, ferramentas como o Microsoft Office e o Google Workspace enfrentam uma ameaça real à sua dominância. A Gartner avisa: o futuro do trabalho não será digitado — será comandado
A empresa de análise tecnológica Gartner lançou um aviso que está a reverberar em salas de reunião de todo o mundo: até 2027, os agentes autónomos de inteligência artificial vão criar o primeiro desafio sério às ferramentas de produtividade dominantes em três décadas, provocando uma reconfiguração de mercado avaliada em 58 mil milhões de dólares. O alvo é claro. São os Microsoft Offices, as folhas Excel e os PowerPoints que o mundo corporativo usa há 30 anos sem grandes alterações.
"Estamos a falar dos Microsoft Offices, das folhas Excel, dos PowerPoints do mundo, que usamos há essencialmente os últimos 30 anos", disse Joe Mariano, analista sénior da equipa de experiência dos colaboradores da Gartner. "A experiência de utilizador é a mesma. A tecnologia, a forma como se criam os documentos, é a mesma."
Isso está prestes a mudar. Segundo as previsões estratégicas da Gartner para 2026 e além, os agentes de IA vão deslocar o ponto de partida do trabalho. Em vez de abrir um documento em branco, os profissionais passarão a dar instruções a um agente que sintetiza informação, produz conteúdo, agenda tarefas e executa fluxos de trabalho completos — sem tocar no teclado.
Os números projetados são expressivos. A Gartner prevê que 40% das aplicações empresariais já terão agentes de IA integrados até ao final de 2026, face a menos de 5% em 2025. E por 2028, mais de um terço de todo o software empresarial incluirá capacidades agentivas. No horizonte de 2035, a firma projecta que a IA agentiva poderá representar 30% das receitas do mercado de software empresarial, ultrapassando os 450 mil milhões de dólares.
A Microsoft não está à espera. Em março de 2026, a empresa lançou o Microsoft 365 E7, um novo pacote empresarial que custa 99 dólares por utilizador por mês — 65% mais caro do que a versão anterior — e que integra agentes de IA directamente no Word, Excel e PowerPoint. Mustafa Suleyman, CEO da divisão de IA da Microsoft, foi mais longe nas suas declarações ao Financial Times. "Acho que vamos ter um desempenho de nível humano na maioria, senão em todas, as tarefas profissionais", afirmou. "O trabalho de escritório, seja advogado, contabilista, gestor de projecto ou profissional de marketing, a maioria dessas tarefas será totalmente automatizada por uma IA nos próximos 12 a 18 meses."
Mas a Gartner também avisa para o outro lado do entusiasmo. Numa previsão que contradiz o hype do sector, a firma estima que mais de 40% dos projectos de IA agentiva serão cancelados até ao final de 2027, devido a custos crescentes, valor de negócio pouco claro ou controlos de risco inadequados. "A maioria dos projectos de IA agentiva são actualmente experiências iniciais ou provas de conceito, maioritariamente impulsionadas pelo hype e muitas vezes mal aplicadas", disse Anushree Verma, directora sénior de análise da Gartner. A firma estima ainda que apenas cerca de 130, dos milhares de fornecedores que se apresentam como agentivos, são genuinamente capazes.
O que está verdadeiramente em jogo não é apenas a tecnologia. São modelos de negócio inteiros, estruturas de licenciamento de software e o valor económico do trabalho do conhecimento. Para as empresas de Angola e Brasil, que dependem de licenças de software ocidental e de mão-de-obra qualificada para funções de escritório, a transição representa tanto uma oportunidade de redução de custos como uma ameaça directa a empregos de colarinho branco que até agora pareciam imunes à automação.
O futuro do trabalho, como a Gartner resume numa frase que ficará, não será digitado. Será comandado.
