A história começa em 1985, na cidade de Filadélfia, na Pensilvânia, numa noite de festa numa casa do bairro de West Philly. Will Smith tinha 16 anos, tinha acabado de terminar o liceu, não tinha dinheiro e não tinha planos concretos, mas tinha talento em abundância: era conhecido no underground da Filadélfia pela sua capacidade de nunca perder uma batalha de rima, pela leveza das suas letras e pela capacidade de contar histórias em verso com um humor e uma inteligência que o distinguiam da maioria dos seus contemporâneos. A particularidade mais marcante do seu estilo é que nunca usou palavrões. Numa época em que o gangsta rap começava a dominar a paisagem sonora do hip-hop americano, Will Smith escolheu deliberadamente um caminho diferente: letras limpas, narrativas divertidas, histórias do quotidiano contadas com ironia e leveza. Era, nas suas próprias palavras, o rapper que qualquer mãe americana podia ouvir sem ficar envergonhada.
Na festa de 1985, conheceu Jeffrey Townes, um DJ com uma técnica de scratch incomparável, inventor de um estilo de manipulação das agulhas do gira-discos que ficou conhecido como transforming e que influenciaria toda uma geração de DJs. Os dois reconheceram imediatamente a química que existia entre o MC leve e narrativo e o DJ tecnicamente brilhante. Nasceu assim a dupla DJ Jazzy Jeff e The Fresh Prince, nome artístico que Will Smith adoptaria e que, anos mais tarde, emprestaria à série de televisão que o tornaria famoso em todo o mundo. O primeiro single, Girls Ain't Nothing but Trouble, lançado em 1986 pela editora independente Word Up Records, foi construído sobre uma amostragem do tema da série de televisão I Dream of Jeannie, e tornou-se um êxito local que chamou a atenção das editoras maiores. A Jive Records, que tinha no seu catálogo nomes como Run-DMC e Public Enemy, não deixou escapar a oportunidade. A dupla foi contratada, e em 1987 lançou o seu primeiro álbum oficial, Rock the House, que vendeu cerca de 300 000 cópias nos Estados Unidos e abriu as portas para a primeira grande digressão ao lado dos maiores nomes do hip-hop da época.
O salto para a consagração aconteceu em 1988, com o segundo álbum, He's the DJ, I'm the Rapper. Concebido como um disco duplo em vinil, foi o primeiro álbum da história do rap a ser lançado neste formato, uma decisão que reflectia a confiança da editora no potencial comercial do projecto. O single de avanço, Parents Just Don't Understand, foi uma canção que capturou de forma precisa e hilariante o abismo geracional entre pais e filhos adolescentes, com o Fresh Prince a descrever o horror de ser levado pela mãe às compras de regresso às aulas e acabar a usar roupas de outras décadas. A música chegou aos tops, tornou-se um fenómeno de rádio e televisão e catapultou a dupla para a fama nacional. Em 1989, quando a Academia Nacional de Artes e Ciências da Gravação criou pela primeira vez uma categoria de Grammy dedicada ao rap, foi exactamente Parents Just Don't Understand que ganhou o primeiro Grammy de Melhor Performance de Rap da história. DJ Jazzy Jeff e The Fresh Prince tornaram-se, naquele momento, a dupla que inaugurou a legitimidade do hip-hop nas premiações musicais mais importantes do mundo. O álbum He's the DJ, I'm the Rapper vendeu mais de três milhões de cópias nos Estados Unidos, tornando-se o oitavo disco de rap mais vendido da época e o terceiro grupo de rap da história a obter certificação de platina, depois dos Run-DMC e dos Beastie Boys.
O terceiro álbum, And in This Corner, lançado em 1989, foi marcado por uma controvérsia curiosa e reveladora do poder que o hip-hop já exercia sobre a indústria cinematográfica. A faixa A Nightmare on My Street, que descrevia um encontro imaginário entre o Fresh Prince e o vilão do cinema de terror Freddy Krueger, gerou uma disputa legal com a distribuidora New Line Cinema, que considerou a referência ao seu personagem não autorizada. O videoclip foi retirado de circulação e o álbum recebeu nas impressões posteriores uma nota de isenção legal. Years anos depois, em 2018, DJ Jazzy Jeff lançaria finalmente o videoclip que nunca tinha sido exibido. O álbum vendeu bem, mas a dupla admitiu mais tarde ter desperdiçado o dinheiro e a energia do processo criativo em festas nas Bahamas, e o resultado final ficou aquém das expectativas geradas pelo álbum anterior.
O que aconteceu a seguir foi a convergência de dois universos que pareciam destinados a encontrar-se. Um produtor da NBC e o lendário Quincy Jones abordaram Will Smith com a proposta de protagonizar uma série de televisão sobre um jovem crescido nas ruas de Filadélfia que ia viver com a sua família rica em Bel-Air, Los Angeles. Smith, que devia ao fisco americano 2,8 milhões de dólares que havia gastado sem pagar impostos, sentiu que não tinha nada a perder. Aceitou o papel. The Fresh Prince of Bel-Air estreou em 1990, tornou-se de imediato um fenómeno cultural e durou seis temporadas, até 1996. A canção-tema, composta e gravada por DJ Jazzy Jeff e The Fresh Prince, tornou-se uma das sequências musicais mais reconhecidas e mais cantadas da televisão mundial. A dupla colocou ainda DJ Jazzy Jeff no elenco da série como o personagem Jazz, o melhor amigo do Fresh Prince que o tio Phil expulsava regularmente da casa de uma forma que se tornou um dos gags mais repetidos da história da televisão americana. Mas a música não parou com a televisão. Em 1991, a dupla lançou o álbum Homebase, e deste disco saiu a canção que é, provavelmente, o maior legado musical de toda a carreira de Will Smith: Summertime. Construída sobre uma amostragem de Summertime Madness do músico Kool and the Gang, a canção capturou com precisão incomparável o espírito das tardes de verão nos bairros americanos, o cheiro do churrasco, o som das bolas a bater no asfalto, os banhos de mangueira e as conversas nas escadas. Summertime chegou ao quarto lugar da Billboard Hot 100, venceu o Grammy de Melhor Performance de Rap por Duo ou Grupo em 1992 e tornou-se uma das canções de verão mais duradouras da cultura popular mundial. Três décadas depois do seu lançamento, continua a tocar nos rádios, nas plataformas de streaming e nas festas de verão de praticamente todos os países do mundo. O álbum Code Red, lançado em 1993, foi o último disco de estúdio da dupla enquanto tal, e incluiu o êxito Boom! Shake the Room, que atingiu o topo das paradas britânicas e confirmou a dimensão internacional do fenómeno.A partir de 1997, Will Smith iniciou a carreira a solo, e a transição foi um sucesso imediato. O álbum Big Willie Style incluiu Men in Black, criada para o filme homónimo que protagonizou, e Gettin' Jiggy Wit It, dois êxitos que lhe valeram dois Grammys adicionais, elevando o total para quatro. Men in Black chegou ao número um em múltiplos países e tornou-se a primeira de uma série de músicas que Will Smith compôs para os filmes em que participou, incluindo Wild Wild West, para As Loucas Aventuras de James West, que atingiu o topo da Billboard Hot 100. O álbum Willennium, lançado em 1999 para assinalar a passagem do milénio, foi o último grande projecto musical de Smith antes de a carreira cinematográfica o absorver de forma total. Ao longo de toda a sua carreira musical, DJ Jazzy Jeff e The Fresh Prince venderam mais de 5,5 milhões de álbuns nos Estados Unidos, e Will Smith a solo acumulou um número de vendas e prémios que colocam a sua discografia entre as mais bem-sucedidas do hip-hop da sua geração.
Em 2024, Will Smith assinou um contrato com a editora Slang, sinalizando o seu regresso ao mundo da música após anos de ausência forçada pela polémica da bofetada em Chris Rock na cerimónia dos Óscares de 2022. A confirmação de presença no Rock in Rio 2024, onde partilhou o palco com DJ Jazzy Jeff, foi o sinal mais claro de que o Fresh Prince não abandonou a música: fez uma pausa. E a música, como Summertime confirma todos os verões, nunca o abandonou a ele.


