Durante décadas, pais, médicos e investigadores debateram com crescente ansiedade a mesma questão: será que os medicamentos prescritos a crianças com Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção aumentam o risco de doenças mentais graves na idade adulta? A preocupação tinha base científica — afinal, estes fármacos actuam sobre a dopamina, a mesma substância química do cérebro que está no centro da psicose. Agora, um estudo de grande escala publicado em Março de 2026 na revista científica JAMA Psychiatry, uma das publicações mais respeitadas da psiquiatria mundial, vem não só desmentir esse temor como inverter radicalmente a equação. O estudo fornece uma das indicações mais claras até à data de que o principal medicamento utilizado para a PHDA não aumenta o risco de psicose a longo prazo e pode até oferecer alguma protecção quando administrado cedo na vida. Uma descoberta que pode transformar a forma como a psiquiatria aborda esta perturbação e, acima de tudo, tranquilizar milhões de famílias em todo o mundo.
A investigação foi liderada pelo professor Ian Kelleher, especialista em Psiquiatria da Infância e da Adolescência na Universidade de Edimburgo, em colaboração com o Dr. Colm Healy, investigador da University College Dublin, dois dos centros de investigação psiquiátrica mais respeitados da Europa. A equipa analisou dados de cerca de 4 000 jovens diagnosticados com PHDA, acompanhados desde a infância até à vida adulta, cruzando os seus históricos de medicação com os registos de diagnósticos psiquiátricos posteriores. O medicamento em análise foi o metilfenidato, conhecido comercialmente pelas marcas Ritalina e Concerta, que constitui, em Portugal e na maioria dos países europeus, o tratamento farmacológico de primeira linha para a PHDA em crianças e adolescentes. Para garantir o rigor metodológico, os investigadores utilizaram métodos estatísticos avançados que permitiram isolar o efeito específico da medicação das restantes variáveis que caracterizam a vida destas crianças ao longo do tempo.
Os resultados surpreenderam até os próprios investigadores. Os dados demonstraram que as crianças tratadas com metilfenidato não apresentaram qualquer aumento no risco de desenvolver perturbações psicóticas na idade adulta em comparação com crianças diagnosticadas com PHDA que não receberam tratamento farmacológico. Mais do que isso: quando o tratamento com metilfenidato foi iniciado antes dos 13 anos de idade e mantido de forma sustentada durante três a quatro anos, registou-se uma redução efectiva do risco de psicose a longo prazo. A dimensão desta associação foi suficientemente robusta para que os autores a descrevessem como clinicamente significativa, apontando para um possível efeito protector duradouro que vai muito além do controlo imediato dos sintomas da PHDA. Importa sublinhar que este benefício protector foi observado exclusivamente nas crianças tratadas durante a infância. Nos jovens cujo diagnóstico e tratamento ocorreram na adolescência ou na vida adulta, o mesmo benefício não se verificou, o que reforça a importância do diagnóstico precoce como factor determinante para o desfecho clínico a longo prazo.
Kelleher foi claro sobre o contexto em que esta descoberta se insere. "Sabemos que, quando se acompanha crianças com PHDA até à idade adulta, uma minoria pequena mas significativa desenvolve perturbações psicóticas como a esquizofrenia", explicou o investigador em declarações à comunicação social. "Uma questão crítica tem sido saber se a medicação para a PHDA causa esse risco, ou se se trata de um caso em que a correlação não significa causalidade. As nossas conclusões sugerem que a própria medicação não está a impulsionar esse risco." A raiz desta preocupação era compreensível do ponto de vista neurobiológico. O metilfenidato actua aumentando a disponibilidade de dopamina nas sinapses do cérebro, o que melhora a atenção, o controlo de impulsos e as funções executivas em crianças com a perturbação. Contudo, a hipótese dopaminérgica da psicose, bem estabelecida na psiquiatria, sugere que um excesso de actividade dopaminérgica em determinadas vias cerebrais está na origem dos sintomas psicóticos. Este aparente paradoxo alimentou durante anos o receio de que os medicamentos estimulantes pudessem, ao longo do tempo, sensibilizar o cérebro em desenvolvimento para a psicose, especialmente em crianças geneticamente vulneráveis. O estudo de Kelleher e da sua equipa vem demonstrar que esse temor não encontra correspondência nos dados reais de desfecho clínico.
A investigação abre, contudo, um campo ainda mais ambicioso do que o simples afastamento de um risco. Os investigadores avançam a hipótese de que o metilfenidato possa ter efeitos neuroprotectores activos a longo prazo, e esta hipótese encontra sustento em investigação pré-clínica prévia. Estudos realizados em ratos e ratinhos demonstraram que o tratamento prolongado com metilfenidato em animais jovens normaliza determinadas anomalias em regiões cerebrais ricas em dopamina, sugerindo que o fármaco pode não apenas compensar os défices associados à PHDA mas também corrigir perturbações precoces do desenvolvimento neurológico que, sem intervenção, poderiam traduzir-se em vulnerabilidade psicótica mais tarde. O Dr. Christian Kohler, professor de psiquiatria na Universidade da Pensilvânia, considerou estes resultados "instigantes e inesperados", questionando se o metilfenidato pode efectivamente equilibrar ou reparar um défice precoce no cérebro, impedindo que esse défice se converta num risco de psicose na vida adulta. "O facto de o tratamento precoce estar associado a um menor risco de psicose a longo prazo sugere que estes medicamentos podem fazer mais do que controlar os sintomas na infância — podem também ter efeitos protectores duradouros contra doença mental grave, embora isso exija mais investigação", afirmou Kelleher.
O estudo não esgota, porém, todas as questões em aberto sobre a relação entre estimulantes e psicose. A investigação centrou-se exclusivamente no metilfenidato, e os seus resultados não podem ser extrapolados para outra classe de medicamentos estimulantes utilizados no tratamento da PHDA noutros países: as anfetaminas, como o Adderall ou o Vyvanse, que em Portugal não estão aprovadas para esta indicação, mas que são amplamente prescritas nos Estados Unidos e no Canadá. Kelleher foi directo neste ponto: "Só conseguimos analisar o metilfenidato. Não conseguimos, porém, analisar outra grande classe de medicamentos estimulantes usados no tratamento da PHDA, as anfetaminas. Por isso, não podemos tirar quaisquer conclusões sobre o risco de psicose para os medicamentos do tipo anfetamina." E esta distinção não é irrelevante: um estudo publicado no New England Journal of Medicine, baseado em mais de 220 000 pacientes, demonstrou que o uso de anfetaminas está associado a um risco de psicose duas vezes superior ao do metilfenidato, com um episódio de psicose por cada 475 pacientes tratados com anfetaminas, em comparação com um por cada 660 tratados com metilfenidato. A diferença entre as duas classes de fármacos é, portanto, significativa e clinicamente relevante.
O Dr. Jeffrey Newcorn, director da divisão de PHDA e perturbações de aprendizagem na Escola de Medicina Icahn do Monte Sinai, em Nova Iorque, que não participou no estudo, sublinhou a importância da tranquilização que este trabalho oferece às famílias. "É reconfortante saber que o risco de uma perturbação psicótica grave ao longo da vida não aumenta com esta medicação", afirmou. Kelleher acrescentou que, nas doses normais aprovadas e licenciadas, o tratamento com metilfenidato não parece aumentar o risco de psicose, e que estes resultados deveriam ser tranquilizadores para os médicos, para os doentes e para as famílias que estão a ponderar uma decisão de tratamento. Persistem, no entanto, questões fundamentais por responder: porque razão as crianças com PHDA apresentam, à partida, um risco aumentado de perturbações psicóticas, independentemente do tratamento? Kelleher sugere que a ligação pode dever-se a factores de risco genéticos partilhados entre a PHDA e as perturbações psicóticas, completamente independentes da medicação. Compreender esses mecanismos comuns pode ser a chave para uma prevenção verdadeiramente fundamentada.
A relevância deste achado insere-se num contexto epidemiológico de enorme peso. A PHDA afecta cerca de 8% das crianças e adolescentes a nível global, e estima-se que aproximadamente 366 milhões de adultos vivam hoje com esta condição, muitos deles sem diagnóstico ou tratamento adequado. Em Portugal, onde os estudos apontam para uma prevalência entre 5% e 7% na população infantojuvenil, a perturbação continua a ser sub-diagnosticada e, quando diagnosticada, frequentemente sub-tratada, em parte devido ao estigma associado ao uso de medicação psicoestimulante em crianças e ao acesso limitado a consultas especializadas no Serviço Nacional de Saúde. Os resultados desta investigação reforçam o argumento de que o atraso no diagnóstico e no acesso ao tratamento não é uma opção sem consequências, mas uma decisão com custos potenciais para a saúde mental a longo prazo. O Dr. Colm Healy, primeiro autor do estudo, destacou precisamente este ponto, sublinhando que as conclusões reforçam a necessidade de investigação específica por faixas etárias, à medida que os diagnósticos de PHDA em adultos continuam a aumentar em todo o mundo.
O que esta investigação torna incontornável é que tratar uma criança com PHDA não é, como muitos temeram, abrir uma porta para a doença mental grave. À luz das evidências mais robustas disponíveis até hoje, pode ser exactamente o oposto: uma forma de proteger, desde cedo, o cérebro que ainda está a construir-se. Para as famílias que vivem com a incerteza do diagnóstico, para os médicos que enfrentam a pressão de pais relutantes em aceitar a medicação, e para os sistemas de saúde que debatem o enquadramento e a acessibilidade do tratamento da PHDA, esta mensagem tem o peso de anos de investigação cuidadosa e de dados que, finalmente, falam mais alto do que o medo.
Milhões de pais preocupados com a medicação dos seus filhos podem respirar de alívio, a ciência acaba de mudar tudo o que sabíamos sobre a PHDA e a psicose. rologia