PORTUGAL-ZERO A ZERO QUE SABE A POUCO



A reabertura do mítico Estádio Azteca, agora rebatizado Estadio Banorte, merecia uma noite de futebol à altura da sua história. Não foi o que aconteceu. Portugal e México protagonizaram um empate a zeros frustrante, num jogo de preparação para o Mundial 2026 que ficou muito aquém das expectativas geradas por dois dos nomes mais sonantes do futebol mundial. A Seleção Nacional dominou a posse de bola, criou as melhores ocasiões e saiu do relvado sem golos, sem grandes certezas e com mais dúvidas do que quando entrou.

O primeiro tempo foi um retrato fiel do que seria a noite inteira: muita posse de bola portuguesa, ritmo lento e escassa clarividência nas zonas de decisão. A altitude da Cidade do México cobrou o seu tributo logo nos primeiros minutos, com alguns jogadores lusos visivelmente condicionados pelo esforço acrescido que a raridade do ar impõe. A melhor oportunidade da primeira parte surgiu precisamente nos instantes em que Portugal parecia começar a ganhar confiança: Bruno Fernandes serviu Gonçalo Ramos com uma assistência de primeira linha, mas o avançado do PSG viu o seu remate colidir com o poste. O México respondeu com uma organização defensiva exemplar, sustentada na figura de Israel Reyes, que acabaria por ser distinguido como o melhor em campo — um prémio que diz tudo sobre a forma como a noite correu.

Na segunda parte, Roberto Martínez foi arrojado nas alterações, promovendo sete substituições ao intervalo numa tentativa clara de refrescar ideias e acelerar o jogo. Entraram João Neves e Vitinha, que inicialmente prometeram uma dinâmica diferente, mas o jogo continuou partido, sem a fluidez necessária para desmontar uma defesa mexicana bem posicionada e disciplinada. Javier Aguirre, o selecionador do México, respondeu com as suas próprias mexidas e os anfitriões chegaram perto do golo pela voz mais improvável da noite: Armando González, recém-entrado, surgiu em posição favorável dentro da área portuguesa mas atirou ao lado, para alívio de Rui Silva. Já no final, João Cancelo apareceu a cabecear uma bola que parecia destinada ao golo, mas a pontaria não foi suficiente para superar o guarda-redes mexicano.

O único momento de maior calor não veio dos golos, mas de um duelo que aqueceu os adeptos nas bancadas: Pedro Neto e Jesús Gallardo travaram uma autêntica luta de galos ao longo de toda a segunda parte, com entradas duras, palavras e um cartão amarelo para o lateral mexicano que deixou o estádio em erupção. Foi o episódio mais vibrante de uma noite que, a todos os outros títulos, confirmou aquilo que a imprensa portuguesa já suspeitava: sem Cristiano Ronaldo, sem Bernardo Silva e sem Rúben Dias, Portugal é uma equipa com talento mas sem a personalidade coletiva necessária para impor a sua vontade a adversários organizados e motivados.

A presença de Paulo Futre nas bancadas, convidado especial da organização para a reinauguração do Estadio Banorte, foi talvez o elemento mais simbólico de uma noite carregada de história mas pobre em emoção futebolística. O estádio que em 2026 vai acolher jogos do Mundial estreou a sua nova relva híbrida e a iluminação modernizada com um jogo que não ficará nos anais. Martínez saiu sem tirar grandes notas, como admitem mesmo os meios mais simpáticos à seleção. Portugal dominou com 61% de posse de bola, criou as ocasiões mais perigosas e ainda assim não conseguiu marcar. É o tipo de estatística que alimenta a preocupação antes de um torneio que começa em junho.

O próximo compromisso está agendado para 1 de abril, em Atlanta, frente aos Estados Unidos, no Mercedes-Benz Stadium. Será outra prova de fogo e outra oportunidade de Martínez encontrar as respostas que esta noite na Cidade do México não deu. O tempo vai encurtando. O Mundial está à porta. E Portugal ainda não convenceu ninguém.


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