Luanda viveu em poucos meses duas visitas de figuras mundialmente reconhecidas e a comparação que os angolanos fazem é reveladora. Will Smith chegou esta semana à capital angolana, dançou ao ritmo da música local, revelou que tem a canção "Mona Ki Ngi Xica" de Bonga como toque de despertador há uma década, reuniu-se com o Presidente João Lourenço e saiu com o coração do povo angolano na bagagem. Messi chegou em Novembro, jogou, marcou, entrou no jato privado e partiu. O contraste não escapou a ninguém.
A visita de Will Smith aconteceu no contexto da E1 League, a primeira competição internacional de motonáutica com embarcações 100% eléctricas, cuja delegação, liderada por Alejandro Agag, veio a Luanda anunciar a inclusão da capital angolana no calendário oficial do Campeonato Mundial UIM E1. A prova está agendada para Setembro de 2026, tornando Angola o segundo destino africano da competição, a par de Lagos, na Nigéria, numa lista que inclui ainda Mónaco, Miami e Lake Como. Smith, proprietário da equipa Visit Angola Westbrook Racing, apresentou-se na conferência de imprensa com um entusiasmo genuíno e contagiante. "África sempre incorporou paixão e determinação. A E1 em Angola é mais do que um momento, é um movimento. Em Setembro, o mundo vai estar a observar e estou entusiasmado por fazer parte disso", afirmou o actor, antes de revelar aos jornalistas que pediu ao Presidente Lourenço que participasse numa cena de acção ao volante para um futuro episódio da saga Bad Boys, filmado em Luanda. "Estamos a tentar coordenar isso", disse Smith a sorrir, numa declaração que arrancou gargalhadas e consolidou ainda mais a sua imagem de figura próxima, acessível e genuinamente apaixonada por Angola.
A passagem de Lionel Messi por Angola, em Novembro de 2025, nas celebrações dos 50 anos da independência nacional, foi de natureza completamente diferente e não passou despercebida nas redes sociais angolanas. Angola pagou entre 25 a 30 milhões de dólares para receber a Argentina no Estádio 11 de Novembro, com Messi a receber pessoalmente cerca de 12 milhões de dólares, num acordo que dividiu o país entre o entusiasmo desportivo e a indignação perante os custos suportados por um estado com enormes desigualdades sociais. A Argentina venceu por 2-0, com Messi a marcar o segundo golo para delírio das bancadas, mas o regresso do capitão argentino ao seu jato privado menos de duas horas após o apito final deixou uma sensação amarga em parte do público angolano. Sem interacção com os fãs, sem gestos de proximidade cultural, sem o menor sinal de que Angola era mais do que mais uma paragem no calendário de uma equipa que foi paga para estar ali.
A comparação entre as duas visitas não é apenas emocional. Reflecte algo de mais profundo sobre o que as populações esperam das figuras internacionais que chegam ao seu país. Angola está num processo activo de construção da sua imagem no exterior, com a marca "Visit Angola — The Rhythm of Life" lançada em Outubro de 2025 e uma estratégia deliberada de atracção de grandes eventos desportivos e culturais. Will Smith chegou e entrou nesse projecto de alma e coração. Messi chegou, cumpriu contrato e partiu.

