O Caminho de Ferro de Luanda anunciou que os bilhetes dos comboios suburbanos Interestações vão subir de 200 para 300 kwanzas a partir do próximo dia 1 de Maio de 2026, um aumento de 50% que vai afectar directamente os milhares de luandenses que utilizam diariamente o transporte ferroviário nos troços Bungo/Viana e Viana/Bungo para se deslocarem entre casa e o trabalho. A medida, justificada pelo CFL com o impacto das profundas alterações macroeconómicas dos últimos anos, já está a gerar reacções entre os utilizadores da linha.
A entidade gestora da ferrovia luandense não deixou margem para dúvidas na comunicação oficial que acompanhou o anúncio. A decisão resulta do impacto crescente do aumento do preço do gasóleo, principal fonte energética que sustenta a actividade ferroviária, sobre os custos operacionais da empresa. A subida do combustível nos mercados internacionais, agravada pelas pressões cambiais que Angola tem enfrentado nos últimos anos com a desvalorização progressiva do kwanza face ao dólar, tornou insustentável a manutenção das tarifas praticadas desde que o serviço suburbano foi retomado após a pandemia. O CFL apelou à compreensão dos passageiros, reafirmando o compromisso de assegurar um transporte público ferroviário acessível, seguro e fiável.
O contexto que rodeia este aumento é conhecido por quem acompanha o sector ferroviário angolano. Há vários anos que o CFL opera com tarifas reconhecidamente abaixo do custo real do serviço, uma realidade que a própria entidade admitiu publicamente em várias ocasiões. Em 2019, fonte oficial da empresa chegou a afirmar que o bilhete real deveria estar avaliado em 600 kwanzas para a segunda classe, quando a tarifa praticada era então de 200 kwanzas. O reajuste de 50% anunciado agora, embora significativo para o bolso de quem utiliza o comboio, representa ainda uma tarifa substancialmente abaixo daquele valor de referência, o que sugere que esta não será a última actualização de preços no horizonte próximo.
Para os utilizadores regulares da linha, o impacto prático é imediato e real. Um trabalhador que faça a viagem de ida e volta entre Bungo e Viana cinco dias por semana passará a gastar 3.000 kwanzas mensais apenas em transportes ferroviários, quando até aqui esse custo era de 2.000 kwanzas. Uma diferença de 1.000 kwanzas mensais que, no contexto do poder de compra de grande parte dos utilizadores do comboio suburbano, não é desprezível. O comboio é, para muitos luandenses, a alternativa mais económica e previsível ao caótico trânsito automóvel que caracteriza as deslocações na capital angolana, e qualquer aumento de tarifa coloca essa equação sob pressão.
O CFL assegura que o reajuste não compromete o objectivo de manter o serviço acessível à população e que os recursos adicionais gerados serão canalizados para garantir maior eficiência, segurança e qualidade na prestação do serviço. A empresa tem realizado nos últimos anos um esforço de modernização da frota e de regularização dos horários, dois aspectos que os utilizadores frequentes reconhecem como melhorias reais face ao histórico de décadas de degradação e paralisações. O desafio é convencer os passageiros de que o aumento de preço será acompanhado por uma melhoria visível e consistente do serviço, algo que a história nem sempre confirma quando se trata de empresas públicas em contextos de pressão financeira.
A data de entrada em vigor, 1 de Maio, coincide com o Dia Internacional do Trabalhador, uma ironia que não passou despercebida nas redes sociais angolanas, onde os comentários dos utilizadores oscilam entre a resignação e a indignação perante mais um aumento num contexto de custo de vida crescente em Luanda.
