O QUE O ÁLCOOL EM EXCESSO FAZ AO SEU CORPO — ÓRGÃO POR ÓRGÃO


Há substâncias cujos efeitos nocivos são imediatos e visíveis. E há substâncias que destroem de forma lenta, metódica e silenciosa, afectando um órgão de cada vez, perturbando um sistema de cada vez, até que o corpo apresenta a conta de anos de excesso numa única consulta médica devastadora. O álcool pertence a esta segunda categoria quando consumido de forma excessiva e continuada. Três milhões de mortes por ano em todo o mundo são atribuídas directamente ao consumo nocivo de álcool, o que representa 5,3% de todas as causas de morte globais, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde. O álcool contribui para mais de 200 doenças e lesões distintas, e na faixa etária dos 20 aos 39 anos, aproximadamente 13,5% do total de mortes no mundo são atribuíveis ao seu consumo. São números que a indústria do entretenimento e a cultura do brinde sistematicamente obscurecem. A ciência, porém, não tem essa indulgência.

A compreensão do que o álcool faz ao organismo começa pela sua natureza química. O etanol, a substância psicoactiva presente em todas as bebidas alcoólicas, é um depressor do sistema nervoso central que, ao contrário do que muitos acreditam, não é um estimulante. A sensação de desinibição e de euforia que caracteriza os primeiros momentos do consumo é o resultado da supressão dos mecanismos de censura e de auto-controlo do córtex pré-frontal, não de uma activação do sistema nervoso. É como se o álcool desligasse, progressivamente, os interruptores que regulam o julgamento, os reflexos, a coordenação e a consciência do risco. A velocidade a que este processo ocorre depende do peso corporal, do sexo, da presença ou ausência de alimentos no estômago, da tolerância individual desenvolvida ao longo do tempo e da quantidade consumida num determinado período.

O fígado é o órgão que suporta a maior carga de trabalho no processamento do álcool e, por isso, o que acumula os danos mais graves em quem bebe em excesso de forma continuada. Cerca de 90% do álcool ingerido é metabolizado pelo fígado, que o converte através de uma série de reacções enzimáticas num composto chamado acetaldeído, altamente tóxico e reconhecido como agente cancerígeno pela Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro. O acetaldeído é posteriormente convertido em acetato, uma substância inofensiva, mas o processo é lento e dependente da capacidade enzimática do fígado, que tem limites. Quando o consumo excede essa capacidade, o acetaldeído acumula-se nas células hepáticas, causando inflamação. A progressão da doença hepática alcoólica segue um padrão que a medicina conhece bem: em primeiro lugar, a esteatose hepática, a acumulação de gordura nas células do fígado, reversível se o consumo cessar a tempo; depois, a hepatite alcoólica, uma inflamação que pode ser aguda e fatal; e finalmente, a cirrose, a substituição irreversível do tecido hepático saudável por tecido fibroso cicatricial que compromete todas as funções do órgão, incluindo a detoxificação, a produção de proteínas e a regulação da coagulação sanguínea. Um fígado cirrótico em falência produz encefalopatia hepática, um estado de confusão progressiva, sonolência e coma que pode ser letal sem intervenção médica imediata.

O cérebro e o sistema nervoso são os alvos seguintes desta destruição sistemática. O álcool actua directamente sobre os receptores GABA e glutamato do cérebro, os dois principais sistemas de neurotransmissores responsáveis pelo equilíbrio entre inibição e excitação neuronal. O consumo crónico altera estruturalmente estes sistemas, criando uma dependência neurológica que explica a síndrome de abstinência: quando o álcool é retirado abruptamente após um período de consumo pesado, o cérebro, habituado ao estado de depressão induzida pelo etanol, entra em hiperexcitabilidade, produzindo tremores, ansiedade intensa, suores, alucinações e, nos casos mais graves, convulsões e delirium tremens, uma condição potencialmente fatal que exige hospitalização. O consumo excessivo e prolongado de álcool pode ainda causar neuropatia alcoólica, uma lesão dos nervos periféricos que se manifesta em dormência, formigueiro, dor crónica e fraqueza muscular nas extremidades, resultado combinado da toxicidade directa do etanol sobre as células nervosas e das deficiências nutricionais, em especial de vitaminas do complexo B, que o alcoolismo crónico invariavelmente provoca. A deficiência de tiamina, vitamina B1, é particularmente grave: pode causar a síndrome de Wernicke-Korsakoff, uma perturbação neurológica caracterizada por confusão mental grave, paralisia dos movimentos oculares e ataxia, que quando não tratada atempadamente deixa sequelas permanentes de memória e de função cognitiva.

O coração e o sistema cardiovascular não escapam a esta trajectória de destruição. O consumo crónico de álcool em quantidades excessivas aumenta os níveis de triglicéridos no sangue, eleva a pressão arterial de forma persistente e, ao longo do tempo, pode causar cardiomiopatia alcoólica, o enfraquecimento progressivo do músculo cardíaco que compromete a sua capacidade de bombear sangue eficientemente. As arritmias cardíacas, incluindo a fibrilação auricular, são consideravelmente mais frequentes em consumidores excessivos, e o risco de acidente vascular cerebral hemorrágico aumenta de forma directamente proporcional à quantidade de álcool consumida por dia. A relação entre o álcool e o sistema cardiovascular é, diga-se, uma das mais debatidas da medicina: alguns estudos documentaram que o consumo moderado, definido como uma a duas doses diárias, se associa a uma redução do risco de enfarte do miocárdio e de acidente vascular cerebral isquémico. Mas a posição dominante da comunidade científica em 2026 é clara: a Organização Mundial da Saúde afirma que não existe qualquer dose de álcool com risco zero para a saúde, e que qualquer benefício cardiovascular marginal do consumo moderado é anulado pelo aumento do risco para outros tipos de doença, incluindo o cancro.

O cancro é, provavelmente, a consequência do consumo excessivo de álcool que mais surpreende as pessoas quando confrontadas com os dados científicos. O acetaldeído, o metabolito tóxico do álcool, danifica o ADN das células, interfere na sua capacidade de reparação e cria condições para a proliferação descontrolada que caracteriza a doença oncológica. Os tipos de cancro mais frequentemente associados ao consumo pesado de álcool incluem os da cavidade oral, da faringe, da laringe, do esófago, do fígado, do cólon e do recto. Nas mulheres, o risco de cancro da mama aumenta de forma mensurável mesmo com consumos considerados moderados, razão pela qual as directrizes oncológicas actuais recomendam a abstinência total como a opção mais segura do ponto de vista do risco oncológico.

O pâncreas é outro órgão silenciosamente devastado pelo álcool crónico. A pancreatite aguda induzida pelo álcool é uma das emergências médicas mais dolorosas e mais perigosas que existem: a inflamação súbita do pâncreas pode progredir para necrose pancreática e falência multiorgânica em questão de horas. A repetição de episódios de pancreatite aguda, numa trajectória frequente nos consumidores crónicos, leva à pancreatite crónica, um estado de inflamação permanente e irreversível que compromete de forma definitiva a produção de enzimas digestivas e de insulina, conduzindo frequentemente ao desenvolvimento de diabetes secundária. O sistema imunitário, por seu lado, é enfraquecido de forma sistémica pelo consumo excessivo de álcool: a capacidade do organismo de combater infecções reduz-se, e os consumidores crónicos apresentam maior susceptibilidade à tuberculose, pneumonia e a doenças sexualmente transmissíveis, em parte pela imunossupressão e em parte pelos comportamentos de risco que o álcool desinibe.

A saúde mental é simultaneamente causa e consequência do consumo excessivo de álcool, numa espiral que a psiquiatria designa como comorbilidade bidirecional. O álcool é frequentemente utilizado como automedicação de estados depressivos, ansiosos ou traumáticos, mas o seu consumo crónico agrava precisamente estas condições, aumentando a impulsividade, a instabilidade emocional e o risco de comportamentos violentos e de auto-lesão. A associação entre o alcoolismo e a depressão major é uma das mais robustamente documentadas de toda a psiquiatria: os consumidores pesados têm entre duas a quatro vezes maior probabilidade de desenvolver depressão clínica do que os não-bebedores, e o risco de suicídio em indivíduos com dependência alcoólica é significativamente mais elevado do que na população geral. A psicose induzida pelo álcool, com alucinações auditivas e visuais e ideias delirantes, afecta cerca de 3% dos dependentes e pode persistir mesmo após a cessação do consumo.

As consequências sociais e relacionais do consumo excessivo de álcool completam este retrato de destruição multidimensional. A violência doméstica, os acidentes de viação, o absentismo laboral, a ruptura de relações familiares e o isolamento social são efeitos documentados que não afectam apenas quem bebe, mas todos os que vivem ao seu redor. Em Portugal, onde o consumo de álcool per capita é um dos mais elevados da União Europeia, e o alcoolismo tem uma taxa de prevalência que os especialistas do Hospital Lusíadas Porto estimam em até 20% para os homens e 10% para as mulheres, o impacto económico e social desta substância representa um fardo que o Serviço Nacional de Saúde e a sociedade portuguesa continuam a pagar de forma crescente.

A recuperação do alcoolismo é possível e documentada. Mas exige reconhecimento precoce, apoio profissional especializado, abordagem farmacológica e terapêutica integrada e, acima de tudo, uma rede de suporte social que reduza o isolamento que frequentemente alimenta o ciclo do consumo. O álcool é uma substância legal, culturalmente enraizada e socialmente aceite. O que a ciência pede é que essa aceitação não obscureça a realidade do que o seu excesso faz, em silêncio e de forma implacável, ao corpo que o recebe.

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