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| Trump pediu ao Congresso 1,5 biliões de dólares para defesa em 2027. Golden Dome, nova frota e cortes sociais dominam o maior orçamento militar da história dos EUA. |
A Casa Branca enviou ao Congresso o maior pedido de orçamento de defesa de sempre. O plano de 1,5 biliões de dólares para o ano fiscal de 2027 representa um aumento de 44% face ao ano anterior e supera todos os registos da história militar americana, incluindo os anos mais intensos da Guerra Fria.
Donald Trump assinou o documento esta sexta-feira e enviou-o formalmente ao Congresso. A proposta chega num momento de tensão global elevada: os Estados Unidos estão em guerra com o Irão desde o final de fevereiro, e a corrida ao armamento entre as grandes potências mundiais nunca foi tão intensa. Para Trump, o recado é claro: os EUA vão ser a força militar mais poderosa do planeta, custe o que custar.
O orçamento divide-se em duas partes distintas. A primeira é uma base de 1,1 biliões de dólares em despesas directas para o Departamento de Defesa, o que já por si representa um marco histórico: é a primeira vez que a verba base ultrapassa o bilião de dólares. A segunda parte, de 350 mil milhões, será pedida através do processo de reconciliação orçamental, uma manobra que os republicanos conseguem aprovar sozinhos no Senado, sem precisar de votos do lado democrata.
"Este montante supera até o rearmamento de Reagan e aproxima-se dos aumentos históricos registados antes da Segunda Guerra Mundial", lê-se no resumo oficial enviado pela Casa Branca ao Congresso. A referência a Roosevelt não é acidental. A administração Trump quer deixar claro que considera o momento actual tão grave quanto os anos que antecederam o maior conflito do século XX.
Golden Dome: o escudo que Trump quer colocar sobre a América
Um dos programas mais ambiciosos do plano é o Golden Dome, o sistema antimíssil que Trump quer construir para proteger o território americano de ataques de longo alcance. Ao contrário do Cúpula de Ferro israelita, que intercepção mísseis de curto alcance, o Golden Dome foi desenhado para parar mísseis hipersónicos e intercontinentais, utilizando tecnologia espacial para detectar e destruir ameaças ainda durante o percurso. O orçamento prevê uma primeira tranche de investimento neste sistema, que no total deverá custar cerca de 185 mil milhões de dólares ao longo dos próximos anos.
O programa tem gerado debate intenso entre especialistas militares. Apoiantes argumentam que a crescente capacidade bélica da China, da Rússia e do Irão torna o escudo indispensável. Críticos alertam que a tecnologia envolvida ainda não foi testada em condições reais e que o custo poderá explodir ao longo do tempo, como aconteceu com outros grandes projectos de defesa americanos nas últimas décadas.
A nova frota naval e o navio com o nome de Trump
O orçamento destina 65,8 mil milhões de dólares à construção naval, o que inclui 18 navios de combate e 16 embarcações de apoio. Entre os destaques está a chamada Golden Fleet, que Trump anunciou no final do ano passado, e que inclui o arranque da construção do primeiro navio de guerra baptizado com o nome do próprio presidente. A frota inclui ainda fragatas de nova geração, submarinos das classes Columbia e Virginia e navios anfíbios de assalto.
A motivação estratégica por detrás do investimento naval é directa: a China tem actualmente a maior frota naval do mundo em número de embarcações, e Washington quer recuperar a supremacia. O secretário de Defesa Pete Hegseth afirmou em Janeiro que o orçamento seria "uma mensagem para o mundo". O pedido desta sexta-feira é a concretização dessa promessa.
Soldados com mais dinheiro no bolso
O plano também traz boas notícias para os militares no activo. Os soldados de posto mais baixo, de E-5 para baixo, recebem um aumento salarial de 7%. Os de nível intermédio, entre E-6 e O-3, sobem 6%, e os oficiais de posto superior ficam com 5% a mais. A medida é apresentada como uma resposta às dificuldades de recrutamento que o exército americano enfrentou nos últimos anos, apesar de 2025 ter sido o melhor ano de recrutamento em mais de uma década.
Quem paga a conta
Para financiar este rearmamento massivo, a Casa Branca propõe cortar 10% nas despesas não militares, o que equivale a uma redução de 73 mil milhões de dólares. Os programas mais afectados são os de habitação, saúde, serviços sociais e apoio a famílias de baixo rendimento. Entre as medidas previstas está a eliminação do Low Income Home Energy Assistance Program, que apoia famílias pobres a pagar as facturas de energia no Inverno, com um custo de 4 mil milhões de dólares. Também desaparece o Community Services Block Grant, de 775 milhões, que financia programas locais de combate à pobreza.
Trump foi directo numa reunião privada na Casa Branca esta semana ao justificar as prioridades do seu governo: "Estamos em guerra. Não podemos tratar do infantário. Isso tem de ser responsabilidade dos estados." A declaração resume bem a filosofia que atravessa todo o documento orçamental: o governo federal faz guerra, os estados tratam do resto.
Congresso dividido, dívida a crescer
A proposta deve enfrentar resistência significativa no Congresso. Os democratas foram rápidos a criticar. O deputado Brendan Boyle, da Comissão de Orçamento da Câmara, resumiu a posição do partido numa frase: "Este orçamento representa America Last." A acusação é a de que Trump aumenta os gastos militares à custa das famílias americanas mais vulneráveis, cortando nos serviços que mais precisam de apoio federal.
Do lado republicano, os presidentes das comissões de forças armadas do Senado e da Câmara aplaudiram o pedido. "A América enfrenta o ambiente global mais perigoso desde a Segunda Guerra Mundial", disseram em comunicado conjunto o senador Roger Wicker e o deputado Mike Rogers. Os dois defendem que os fundos são essenciais para fazer face às ameaças de China, Rússia e Irão.
O problema estrutural é que a dívida pública americana já ultrapassa os 39 biliões de dólares, e o país regista défices anuais próximos dos 2 biliões. Economistas alertam que o plano de Trump pode adicionar vários biliões ao défice ao longo da próxima década, especialmente se o Congresso aprovar os 350 mil milhões pedidos via reconciliação sem compensações equivalentes do lado da receita. O senador Ron Johnson, um dos mais críticos das despesas públicas dentro do próprio partido republicano, foi claro: "Com a dívida total a aproximar-se dos 39 biliões, será necessária uma redução agressiva noutras áreas."
O orçamento é, por ora, uma proposta. O Congresso é quem aprova os valores finais, e os números que chegam à Casa Branca depois das negociações raramente são iguais aos que saíram dela. Mas como declaração de intenções e sinal político, o pedido de 1,5 biliões de dólares diz tudo sobre as prioridades de Trump para o segundo mandato: uma América militarmente dominante, pronta para a guerra, e com menos apetite para financiar o estado social que marcou as últimas décadas.
