A linha digitável e o código de barras contêm informações que permitem recalcular o valor exato de juros e multa; em muitos casos, o valor cobrado pelos sistemas automáticos está incorreto e pode ser reduzido manualmente
Por Redação Infonews24hs | 29 de abril de 2026
Milhões de brasileiros pagam boletos vencidos todos os dias sem saber que, em muitos casos, o valor cobrado automaticamente pelos sistemas bancários está incorreto. A linha digitável e o código de barras guardam um segredo: eles contêm toda a informação necessária para que o próprio devedor recalcule os juros e a multa de forma independente. E, quando esse cálculo é feito corretamente, o valor a pagar pode ser significativamente menor – sem necessidade de qualquer negociação com o credor.
Para mais informações sobre códigos secretos e segredos financeiros que os bancos não contam, veja o nosso artigo sobre o código secreto do cartão de crédito.
O que está escondido no código de barras
O código de barras de um boleto bancário (seja ele de contas de consumo, impostos, financiamentos ou qualquer outra cobrança) é composto por 44 dígitos que obedecem a um padrão rigoroso estabelecido pela Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN). Esses dígitos não são aleatórios: cada bloco de números guarda informações precisas sobre o valor original do título, a data de vencimento, os juros diários aplicáveis, a multa percentual e o fator de desconto, entre outros dados.
Quando se paga um boleto vencido através do aplicativo do banco, o sistema lê este código de barras e aplica automaticamente os juros e a multa de acordo com uma fórmula pré-definida. O problema é que esta fórmula automática pode estar desatualizada, configurada incorretamente ou simplesmente não refletir o contrato assinado entre as partes. E é aqui que reside a oportunidade de economizar.
O Código de Defesa do Consumidor e a legislação brasileira determinam que os juros de mora não podem ultrapassar 1% ao mês (ou 0,033% ao dia) e que a multa por atraso não pode exceder 2% do valor original da dívida. No entanto, muitos sistemas bancários aplicam taxas superiores a estas devido a erros de configuração ou à utilização de índices desatualizados.
Como calcular o valor correto do seu boleto vencido
Para calcular corretamente o valor de um boleto vencido e evitar pagar juros ou multas indevidas, siga estes passos.
Primeiro, identifique o valor original do título. Ele está contido nos dígitos 20 a 34 do código de barras (para boletos padrão FEBRABAN), ou pode ser encontrado diretamente no campo "valor do documento" na linha digitável. Guarde este número. Ele é a base para todo o cálculo.
Segundo, verifique a data de vencimento original. A data de vencimento está codificada nos dígitos 17 a 20 do código de barras (no formato "Fator de Vencimento") e pode ser convertida para uma data legível usando tabelas de conversão disponíveis online. A data de vencimento determina quantos dias de atraso existem.
Terceiro, calcule os dias de atraso. Subtraia a data de vencimento original da data atual. Atenção: para efeitos de juros de mora, considera-se apenas dias corridos; para multa, o percentual é cobrado independentemente do número de dias de atraso.
Quarto, aplique a multa de 2% sobre o valor original. A multa por atraso, conforme previsto no artigo 52, §1º, do Código de Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078/90), é de no máximo 2% sobre o valor da prestação. Este percentual é cobrado independentemente do número de dias em atraso. Assim, o valor com multa é o valor original multiplicado por 1,02.
Quinto, aplique os juros de mora de 1% ao mês (0,033% ao dia). Os juros de mora são devidos apenas após o vencimento e incidem sobre o valor original da dívida (ou sobre o valor acrescido da multa, conforme previsto em contrato). O cálculo mais comum é sobre o valor original. Assim, juros diários = valor original × (1% ÷ 30) = valor original × 0,00033. Juros totais = juros diários × número de dias de atraso.
Sexto, some tudo: valor original + multa (2% sobre o original) + juros de mora (0,033% ao dia sobre o original). O resultado é o valor máximo legal que o credor pode cobrar. Qualquer valor acima disto é indevido e pode ser contestado.
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Exemplo prático: quando o banco cobra a mais
Suponha um boleto de R$ 1.000,00 com vencimento em 1º de março de 2026, pago em 30 de abril de 2026 (60 dias de atraso). O sistema do banco, por lapso, aplica juros de 2% ao mês e multa de 5%. O cálculo seria: R$ 1.000,00 × 1,05 (multa) = R$ 1.050,00. Juros mensais: R$ 1.000,00 × 2% × 2 meses = R$ 40,00. Total = R$ 1.090,00.
O cálculo correto pela lei é: multa de 2% = R$ 20,00. Juros diários de 0,033% × 60 dias = 1,98% de juros = R$ 19,80. Total correto = R$ 1.039,80. O banco está a cobrar R$ 50,20 a mais. Em valores absolutos pode parecer pouco, mas em boletos de valores elevados ou com muitos dias de atraso, a diferença pode chegar a centenas ou milhares de reais.
Como contestar o valor cobrado e pagar menos
Se identificou que o valor cobrado pelo sistema automático do banco é superior ao cálculo legal, existem várias formas de contestar e pagar o valor correto.
A primeira opção é pagar presencialmente numa agência bancária ou numa casa lotérica. Solicite ao atendente que calcule o valor dos juros e da multa com base no contrato ou no Código de Defesa do Consumidor (limite de 1% de juros ao mês e 2% de multa). Muitas vezes, o atendente consegue anular as taxas abusivas manualmente, aplicando os índices corretos.
A segunda opção é utilizar o "pagamento parcial" com redução de juros. Alguns aplicativos bancários permitem pagar o boleto com um valor personalizado, diferente do valor sugerido automaticamente. Neste caso, o cliente pode digitar o valor correto (calculado por si) e pagar apenas esse montante. O banco é obrigado a aceitar o pagamento, embora possa requerer a diferença em contato futuro.
A terceira opção é solicitar ao banco a reemissão do boleto com o valor correto. É um direito do consumidor. Caso o banco se recuse, o consumidor pode abrir uma reclamação no Banco Central (através do sistema Registrato) ou no Procon. Nestes casos, o valor indevido não precisa ser pago até que a questão seja resolvida, e normalmente a decisão é favorável ao consumidor.
A quarta opção, para boletos de valores elevados, é pagar o valor correto e depois processar o banco ou o credor para reaver a diferença em dobro. O Código de Defesa do Consumidor prevê a devolução em dobro de valores cobrados indevidamente (artigo 42, parágrafo único). Isto significa que, se o banco cobrou R$ 100 a mais, terá de devolver R$ 200.
Os boletos de impostos e taxas públicas também têm este segredo
IPVA, IPTU, licenciamento anual e outros impostos estaduais e municipais também são pagos através de boletos com código de barras. A mesma lógica se aplica: os juros por atraso não podem ultrapassar 1% ao mês (ou 0,033% ao dia). No caso de impostos, as regras são ainda mais rigorosas, pois a administração tributária (Receita Federal, Secretaria da Fazenda Estadual ou Secretaria Municipal da Fazenda) tem de seguir o Código Tributário Nacional e as leis específicas de cada ente federativo. Estes órgãos frequentemente aplicam juros superiores aos 1% ao mês, mas tais taxas podem ser consideradas abusivas e passíveis de contestação judicial.
No caso do IPTU e IPVA, os contribuintes podem pagar o valor do imposto sem os juros e a multa e, em seguida, recorrer administrativamente ou judicialmente contra a cobrança de juros excessivos. Se a decisão for favorável, o valor pago a mais é devolvido com correção.
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O que a lei diz: os limites legais para juros e multa
O Código de Defesa do Consumidor, no artigo 52, §1º, estabelece que "a multa de mora decorrente do inadimplemento de obrigação no seu termo não poderá ser superior a 2% (dois por cento) do valor da prestação". Quanto aos juros de mora, a Súmula 596 do Supremo Tribunal Federal (STF) e a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ) estabelecem que os juros de mora não podem ultrapassar 1% ao mês (ou 0,033% ao dia) em contratos regidos pelo CDC.
Isto significa que, legalmente, o máximo que o credor pode cobrar por um boleto vencido é: valor original + 2% (multa) + 0,033% ao dia de atraso (juros). Qualquer percentagem acima disto é considerada abusiva e pode ser judicialmente contestada, com direito a devolução em dobro do valor cobrado indevidamente.
Muitos contratos de financiamento, cartão de crédito e empréstimos pessoais estipulam juros de mora muito superiores a 1% ao mês. Estes contratos são nulos de pleno direito, e o consumidor pode exigir o cumprimento dos limites legais. A recusa do credor em aceitar o pagamento com os juros legais é considerada abusiva e pode gerar indenização por danos morais.
Em síntese: sempre que pagar um boleto vencido, calcule o valor correto utilizando os limites legais. Muito provavelmente, será menor do que o valor sugerido pelo sistema. Utilize o direito de contestar, pague o valor correto e, se for cobrado indevidamente, processe o banco para receber em dobro. O segredo está no código de barras – e na lei.
Aviso importante: Este artigo tem fins exclusivamente informativos e não constitui aconselhamento jurídico. As leis e regulamentos podem variar consoante o tipo de dívida e a jurisdição. Antes de tomar qualquer decisão financeira, consulte um advogado especializado em direito do consumidor ou um contabilista.
Referências completas
- Código de Defesa do Consumidor – Lei nº 8.078/90. Planalto. 11 setembro 1990. http://www.planalto.gov.br/
- Febraban – Padrão de boletos bancários. Febraban. 2026. https://www.febraban.org.br/
- Súmula 596 do STF – Juros de mora. STF. 1977. https://jurisprudencia.stf.jus.br/
- Cálculo de juros e multa em boletos vencidos. Banco Central do Brasil. 2026. https://www.bcb.gov.br/
- Como contestar cobranças indevidas. Procon. 2026. https://www.procon.sp.gov.br/
- Juros abusivos: como identificar e contestar. IDEC. 2026. https://idec.org.br/
