|
Especialistas explicam as causas do despertar noturno frequente e apresentam estratégias baseadas em evidências para recuperar o sono profundo Por Redação Infonews24hs | 18 de abril de 2026
Acordar no meio da noite e não conseguir voltar a dormir é uma queixa mais comum do que se imagina. Dados dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) indicam que cerca de 17,8% dos adultos relatam esta dificuldade na maioria das noites. Este padrão tem um nome específico: insónia de manutenção do sono (sleep maintenance insomnia). Diferente da dificuldade para adormecer, este tipo de insónia caracteriza-se por despertares noturnos frequentes ou o despertar precoce, com incapacidade de retomar o sono. O impacto na qualidade de vida é significativo. Quem sofre de insónia de manutenção acorda várias vezes durante a noite, muitas vezes sem conseguir identificar uma causa aparente. O resultado é um sono fragmentado, não reparador, que leva a sonolência diurna, irritabilidade, dificuldade de concentração e queda no desempenho no trabalho ou nos estudos. Estudos mostram que a privação crónica de sono está associada a maior risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, obesidade, depressão e ansiedade. O que a ciência revela sobre acordar durante a noiteA investigação na área da medicina do sono tem demonstrado que a insónia de manutenção afeta uma parcela significativa da população. Estudos indicam que quase dois terços das pessoas com insónia apresentam exatamente este padrão: dificuldade em permanecer a dormir durante a noite. Ao contrário do que muitos pensam, não se trata de um problema exclusivo de pessoas ansiosas ou com depressão, embora estas condições estejam fortemente associadas. O problema tende a agravar-se com a idade. À medida que envelhecemos, o tempo de sono profundo diminui naturalmente, tornando os despertares noturnos mais frequentes. Além disso, o ciclo vicioso da ansiedade em torno do sono — preocupar-se com a incapacidade de dormir — ativa o sistema nervoso simpático, libertando cortisol e adrenalina, que são os opostos do que o corpo precisa para relaxar. Este fenómeno é conhecido como "ansiedade de desempenho do sono": quanto mais se tenta dormir, mais difícil se torna. A Dr.ª Wendy Troxel, especialista em psicologia clínica e medicina comportamental do sono da RAND Corporation, explica que o problema não é acordar — o verdadeiro vilão é o que fazemos a seguir. "O sono é um estado altamente dinâmico, e acordar no meio da noite faz parte do processo do sono", afirma Troxel. O ciclo do sono alterna naturalmente entre fases profundas e leves, e pequenos despertares — até 20 vezes por hora — são completamente normais. O caos começa quando, ao invés de relaxar, ativamos o "modo de frustração". Contar os minutos, resmungar mentalmente e forçar o sono apenas aumenta a ansiedade. Principais causas dos despertares noturnos
Tabela 1. Comparação dos tipos de insónia e suas características
A regra dos 20 minutos: a estratégia que funcionaQuando acordar no meio da noite, a recomendação unânime entre os especialistas da Johns Hopkins, do Instituto do Sono e da especialista Wendy Troxel é: não force o sono na cama. "Se não adormecer depois de cerca de 20 minutos, levante-se", aconselha Luis F. Buenaver, Ph.D., especialista em sono da Johns Hopkins Medicine. "Vá para uma cadeira confortável noutra divisão. Leia um livro com luz baixa. Se a mente estiver a mil, distraia-se com música calma ou um audiolivro. Nada de tarefas stressantes ou ecrãs", orienta o especialista. A regra de ouro é associar a cama apenas ao ato de dormir (e à intimidade). Ficar a olhar para o teto ou a rolar na cama ensina o cérebro a ver aquele espaço como um local de frustração e vigília, criando um ciclo vicioso. O primeiro impulso ao acordar é procurar o telemóvel ou o despertador para ver as horas. É também o pior erro. "Nada de bom vem de olhar para o relógio às 3h da manhã", alerta Troxel. Ver as horas só aumenta a ansiedade ("Vou dormir só X horas") e ativa o estado de alerta. A sugestão é virar o despertador para a parede e deixar o telemóvel fora do quarto durante a noite. Porque é que a insónia de manutenção aconteceA explicação científica para os despertares noturnos está relacionada com o funcionamento natural do ciclo do sono. O sono alterna entre fases profundas e leves (micro despertares) ao longo da noite. Estes despertares parciais são normais e ocorrem sem que tenhamos consciência deles na maioria das vezes. O problema instala-se quando, ao acordar ligeiramente, o cérebro interpreta esse estado como uma ameaça. A pessoa começa a pensar: "Já são 3h da manhã, amanhã vou estar exausto". Esta ativação cognitiva liberta cortisol, mantendo o cérebro em alerta e dificultando o regresso ao sono. Quanto mais tempo se passa na cama a tentar forçar o sono, mais o cérebro associa aquele espaço à frustração e à vigília — um fenómeno conhecido como "condicionamento negativo". A Terapia Cognitivo-Comportamental para Insónia (TCC-I) é atualmente considerada o tratamento de primeira linha para este tipo de insónia, com taxas de sucesso superiores a 70% mesmo em casos crónicos. A TCC-I ataca as causas comportamentais e cognitivas do problema, incluindo a reestruturação de pensamentos disfuncionais sobre o sono, o controlo de estímulos e a restrição do tempo na cama. A técnica preventiva do "caderno de preocupações"Para quem sofre de despertares acompanhados de pensamentos acelerados, Wendy Troxel sugere uma estratégia proativa chamada "exercício da preocupação programada". Reserve um caderno e, 30 minutos antes de dormir, escreva todas as preocupações que tem na cabeça. Faça uma lista de tarefas para o dia seguinte. Ao colocar as preocupações no papel, o cérebro sente-se mais livre para descansar. Nos primeiros dias, é comum a lista ser extensa, mas ao fim de duas semanas, muitos notam que têm menos preocupações para anotar — um sinal de que o cérebro está a aprender a adiar a ansiedade para um horário específico, libertando a hora de dormir. Quem tem maior risco de desenvolver este problema
O que evitar para não piorar a insónia
O que isto muda para Angola e BrasilNos dois países, os distúrbios do sono são subdiagnosticados e frequentemente tratados apenas com medicação, sem abordagem das causas subjacentes. No Brasil, estima-se que cerca de 72% da população sofra de algum tipo de alteração do sono, com a insónia de manutenção a liderar as queixas. O uso crónico de benzodiazepinas (ansiolíticos) é uma preocupação, pois estes medicamentos perdem eficácia ao longo do tempo e podem causar dependência. Em Angola, a falta de serviços especializados em medicina do sono e a escassez de psicólogos treinados em Terapia Cognitivo-Comportamental para Insónia (TCC-I) deixam muitos pacientes sem acesso ao tratamento mais eficaz. A maioria dos casos é tratada com medicamentos prescritos por clínicos gerais, sem investigação das causas subjacentes. As consequências incluem maior risco de acidentes de viação, menor produtividade no trabalho e pior controlo de doenças crónicas como hipertensão e diabetes. A boa notícia é que estratégias simples e de baixo custo — como ajustar a higiene do sono e a regra dos 20 minutos — podem ser implementadas em casa. Para casos mais graves, a TCC-I (acessível em alguns serviços públicos brasileiros e por telemedicina) tem taxas de sucesso superiores a 70%, mesmo em casos crónicos. Em Angola, a expansão da telemedicina pode ser uma solução para levar a TCC-I a populações remotas. Quando é que isto se torna um problema de saúde?Acordar uma ou duas vezes por noite é normal. O alerta deve ligar-se quando este padrão se torna frequente (mais de três vezes por semana) e começa a afetar o dia seguinte com cansaço extremo, irritabilidade ou falta de concentração. Se as estratégias caseiras não resultarem após algumas semanas, pode ser caso de insónia de manutenção do sono. Nesse cenário, os especialistas recomendam procurar ajuda médica. O tratamento de eleição atualmente não é farmacológico: chama-se Terapia Cognitivo-Comportamental para Insónia (CBT-I), que ataca as causas comportamentais e cognitivas do problema com taxas de sucesso duradouras. Ao contrário dos medicamentos, a TCC-I não perde eficácia com o tempo e não causa dependência. ConclusãoAcordar durante a noite e não conseguir voltar a dormir é um problema comum, mas tem solução. A evidência científica mostra que a insónia de manutenção responde muito bem a abordagens comportamentais, especialmente à Terapia Cognitivo-Comportamental para Insónia. A regra simples de se levantar da cama após 20 minutos sem conseguir dormir e fazer uma atividade relaxante noutra divisão é uma das estratégias mais eficazes e imediatas para quebrar o ciclo vicioso da ansiedade do sono. Se sofre deste problema, experimente as estratégias sugeridas durante duas semanas. Se os sintomas persistirem, procure um médico especialista em sono ou um psicólogo treinado em TCC-I. O tratamento adequado pode transformar as suas noites e a sua qualidade de vida. Tabela de recomendações práticas
Aviso importante: este artigo tem fins exclusivamente informativos. Se os despertares noturnos forem frequentes (mais de 3 noites por semana) e persistirem por mais de um mês, ou se estiverem associados a ronco alto, pausas respiratórias, sonolência diurna severa, formigueiro nas pernas ou urgência para movimentar as pernas ao deitar, consulte um médico especialista em sono ou um psicólogo com experiência em TCC-I. Não interrompa medicações prescritas sem supervisão médica. Referências completas
Leia também no INFONEWS24HS |
