A Suíça enfrenta a maior ameaça de desabastecimento de gasolina e diesel em décadas, devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz provocado pela guerra entre Estados Unidos, Israel e Irão. Enquanto a Ásia já sente a escassez e a Europa se prepara para o racionamento a partir de 10 de abril, o país alpino garante, por enquanto, que não há motivo para pânico, mas os preços já dispararam e a população começa a sentir no bolso o impacto do crude oil price surge mais violento desde 2022.
O diesel ultrapassou os 2 francos suíços por litro, cerca de 2,50 dólares, um valor que não era visto desde o início da guerra na Ucrânia. A gasolina subiu mais de 20 cêntimos de franco em apenas duas semanas, e o óleo de aquecimento registou uma escalada impressionante de 40 por cento entre o final de fevereiro e o início de março. Para as famílias suíças, a conta promete ser salgada: se os preços se mantiverem neste patamar durante um ano inteiro, o custo adicional com energia pode chegar aos 4,9 mil milhões de francos, o equivalente a cerca de 1.200 francos por agregado familiar.
Uma Suíça menos dependente de energia fóssil estaria menos exposta a este tipo de crise geopolítica, alerta Cyril Brunner, investigador do ETH Zurique, citado pela agência Anadolu.A origem do problema está a milhares de quilómetros de distância, mas o efeito é imediato. Desde o ataque militar conjunto dos EUA e Israel a 28 de fevereiro, que matou o líder supremo do Irão, Ali Khamenei, e mais de 1.340 pessoas, o regime de Teerão fechou o Estreito de Ormuz, uma pequena passagem marítima entre a península arábica e a costa iraniana por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo mundial. O bloqueio transformou-se numa bomba-relógio que, segundo os analistas da J.P. Morgan, vai explodir de forma sequencial: primeiro na Ásia, depois em África, na Europa a partir de 10 de abril e, finalmente, nos EUA a 15 de abril.
O estudo do banco norte-americano, divulgado no final de março, traça um cenário preocupante. Os analistas da J.P. Morgan explicam que o sistema petrolífero global está a passar de um choque de fluxo para um problema de esgotamento de reservas. A última entrega de crude embarcada antes do fecho do estreito chegou ao seu destino. A partir de agora, os países que dependem do Golfo Pérsico vão começar a sentir a falta.
A Ásia já está sob pressão, afirmam os analistas. Os países asiáticos, que obtêm entre 80 e 90 por cento do seu petróleo da região do Golfo, são os mais vulneráveis. As Filipinas já declararam estado de emergência energética. Para abril, a J.P. Morgan estima uma quebra na procura de petróleo no Sudeste Asiático na ordem dos 300 mil barris por dia. Se o conflito se prolongar, esse número pode saltar para mais de 2 milhões de barris por dia em maio.
No continente africano, o impacto começará a sentir-se nos primeiros dias de abril, com uma possível redução de 250 mil barris por dia se as reservas internas forem baixas. A Europa entra em cena a 10 de abril, esta sexta-feira, mas os analistas do banco fazem uma ressalva importante: para os europeus, o choque será mais devido ao aumento dos custos e à concorrência com a Ásia do que propriamente à escassez direta. Os EUA, por terem uma produção interna considerável, só sentirão o impacto a partir de 15 de abril, e mais nos preços do que na disponibilidade física do produto.
Enquanto os vizinhos europeus se preparam para o racionamento, a Suíça mantém a calma. O país, que não tem recursos energéticos próprios e importa tudo o que consome, construiu ao longo das décadas um sistema de reservas estratégicas que lhe permite resistir a tempestades geopolíticas.
De acordo com o Escritório Federal para o Abastecimento Económico Nacional, a Suíça dispõe de reservas obrigatórias de derivados de petróleo, como gasolina, diesel, fuelóleo e querosene, suficientes para cobrir as necessidades do país durante quatro meses e meio, ou seja, cerca de 18 semanas. Em números redondos, são 14,5 milhões de barris armazenados, geridos por empresas privadas mas sob rigorosa supervisão estatal.O nosso abastecimento de produtos petrolíferos está sempre garantido. Não há receio de escassez, garantiu Ueli Bamert, porta-voz da Avenergy, a organização que reúne os operadores do mercado petrolífero na Suíça, em declarações à SWI swissinfo.Há várias razões para esta tranquilidade. Primeiro, a Suíça não depende do Médio Oriente para o seu aprovisionamento. Metade do crude que importa vem dos Estados Unidos, que aumentaram significativamente a sua produção graças ao fracking e à revogação da proibição de exportações em 2015. A Nigéria é o segundo maior fornecedor. Segundo, a refinação é feita maioritariamente na Europa, que por sua vez se abastece na Noruega, Argélia e América do Norte, regiões fora do conflito.
Compramos crude de vários países. As decisões baseiam-se em critérios económicos e operacionais, que podem mudar a qualquer momento, explicou a VARO Preem, empresa que opera a refinaria de Cressier, no cantão de Neuchâtel, a única ainda em atividade no país.
Se a Suíça não depende do Médio Oriente e tem reservas para quase cinco meses, porque é que os preços nas bombas estão a disparar? A resposta é simples: a Suíça não vive numa bolha. O mercado energético é global, e o crude é uma commodity transacionada em dólares em bolsas internacionais. Quando o preço do barril sobe, e subiu, o Brent ultrapassou os 108 dólares em março, uma valorização de 49 por cento num mês, esse aumento reflete-se imediatamente nos custos de importação.
Além disso, a taxa de câmbio também joga a seu favor ou contra ele. O crude é comprado em dólares. Se o franco suíço se enfraquecer face à moeda norte-americana, o que tem acontecido com a fuga para a segurança típica de períodos de guerra, o combustível fica ainda mais caro para os suíços.
Michael Knobel, diretor-geral da Etzelpark e proprietário de oito postos de gasolina em sete cantões suíços, explica ao blue News como funciona o mecanismo: Compro gasolina diretamente ao importador, sempre com antecedência suficiente para seis a dez dias. Quando o petróleo fica mais escasso, o preço sobe automaticamente. Se eu compro hoje para a próxima semana e a guerra acabasse amanhã, continuo a ter de vender essa gasolina ao preço que paguei por ela.
Knobel, que consegue praticar preços mais baixos do que a concorrência graças a uma gestão hipereficiente apoiada por inteligência artificial, admite que o mercado reage sempre mais rápido às subidas do que às descidas. Tenho menos ganância, diz, justificando a sua margem mais reduzida.
Perante a dimensão da crise, a Agência Internacional de Energia já reagiu. A 13 de março, disponibilizou 400 milhões de barris das reservas de emergência dos seus países membros para estabilizar o mercado. A Suíça, que é membro da AIE, decidiu não participar nesta libertação voluntária, pelo menos para já.Devido à atual segurança do abastecimento de produtos minerais na Suíça e à flexibilidade nacional planeada, a Suíça não participa na libertação voluntária por enquanto, explicou o Escritório Federal para o Abastecimento Económico Nacional ao jornal Blick.
A decisão é estratégica. A Confederação prefere guardar as suas reservas para uma situação de emergência real, uma escassez aguda e confirmada, em vez de as gastar numa crise de preços. E, legalmente, o governo suíço não tem atualmente base legal para intervir no mercado energético. Se a situação se degradar, porém, medidas preparadas há muito tempo, como a redução do consumo ou a utilização das reservas de emergência, serão ativadas rapidamente.O futuro é incerto, e os cenários mais pessimistas são verdadeiramente assustadores. A consultora Macquarie, uma das maiores especialistas mundiais em commodities, alerta para a possibilidade de o conflito no Médio Oriente se prolongar até junho. A probabilidade, segundo os estrategistas da casa, é de 40 por cento.
Se isso acontecer, o preço do barril de petróleo pode disparar para os 200 dólares. Para ter uma ideia do que isto significa, o recorde histórico foi de 147 dólares em 2008, no pico da crise financeira. Nos EUA, o preço da gasolina ao consumidor poderia saltar para uns impressionantes 7 dólares por galão.
As consequências para a inflação global e para a confiança dos consumidores seriam substanciais, advertem os analistas da Macquarie, citados pela imprensa financeira internacional.
A economia suíça, tradicionalmente resiliente, não ficará imune. O instituto BAK Economics reviu em baixa as suas previsões de crescimento para 2026. A inflação, que se estimava em 0,3 por cento no início do ano, deverá agora situar-se nos 0,6 por cento, um valor baixo para os padrões internacionais, mas significativo para a Suíça, onde a estabilidade de preços é quase uma religião.A subida vai ficar bem abaixo dos níveis registados no estrangeiro, mas a mudança será ainda assim significativa pelos padrões suíços, particularmente devido ao aumento dos custos de energia e das importações, explica o BAK Economics.
Hans Gersbach, codiretor do Centro de Investigação Económica KOF do ETH Zurique, fez as contas: se o preço do petróleo se estabilizar permanentemente nos 90 dólares por barril, o crescimento económico suíço terá de abrandar entre 0,2 e 0,4 por cento ao ano, durante dois anos consecutivos. Isto traduz-se numa perda de rendimento médio por pessoa de cerca de 200 a 400 francos por ano.
Num cenário mais negro, com o crude acima dos 105 dólares, a perda anual por pessoa pode chegar aos 500 a 750 francos. O impacto económico seria ligeiramente mais forte do que o das tarifas de 39 por cento impostas pelos EUA a muitas importações suíças em agosto de 2025, compara Gersbach.
A data de 10 de abril, esta sexta-feira, é apontada pela J.P. Morgan como o momento a partir do qual a Europa começará a sentir a escassez. Na Suíça, o governo federal monitoriza a situação de perto e reúne-se regularmente através do comité de pilotagem da segurança do abastecimento energético, liderado pelo presidente da Confederação, Guy Parmelin, e pelo ministro da Energia, Albert Rösti.
Até agora, o discurso oficial é de tranquilidade. Mas os preços continuam a subir, e a população já se prepara para contas mais pesadas. A guerra no Médio Oriente, que já matou milhares de pessoas e desestabilizou toda a região, está agora a bater à porta dos lares suíços, não com bombas, mas com a fatura do diesel e do aquecimento.A questão que fica no ar é simples: se o conflito durar meses, as reservas suíças de 4,5 meses serão suficientes? E o que acontece quando elas acabarem? Para já, ninguém quer pensar nisso. Mas o crude oil price surge já ultrapassou os 100 dólares, e o mercado não mostra sinais de abrandamento.
