UM JOGADOR CONTRATADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: O FUTURO DO FUTEBOL JÁ CHEGOU — E TEM 18 ANOS

UM JOGADOR CONTRATADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: O FUTURO DO FUTEBOL JÁ CHEGOU — E TEM 18 ANOS

Pedro Carreço tem 18 anos, joga a defesa-central e foi titular em oito dos últimos nove jogos dos sub-19 do Académico de Viseu. Números modestos para quem olha de fora, mas que ganham uma dimensão completamente diferente quando se conhece a história por detrás da sua chegada a Portugal. Carreço não foi descoberto pelo olho clínico de um scout experiente nem por uma rede de contactos construída ao longo de décadas. Foi identificado por uma plataforma de inteligência artificial chamada CUJU — e isso muda tudo.

O jovem brasileiro, natural de Florianópolis e formado no Figueirense, tornou-se, sem o ter planeado, num símbolo de uma revolução silenciosa que está a transformar a forma como o futebol encontra, avalia e contrata talento. A CUJU, plataforma especializada na análise de jogadores através de algoritmos avançados, cruzou dados, métricas de desempenho e padrões de jogo para apontar Carreço como um perfil adequado para dar o salto para o futebol europeu. O Académico de Viseu acreditou. E, pelo menos por agora, a máquina não se enganou.

Há algo de simultaneamente fascinante e perturbador nesta história. Fascinante porque a tecnologia está a democratizar o acesso ao talento, permitindo que jogadores de clubes menos mediáticos — como o Figueirense, que atravessa dificuldades financeiras e competitivas no cenário brasileiro — sejam vistos, analisados e valorizados sem dependerem de quem os conhece pessoalmente ou de quem assiste aos seus jogos ao vivo. Perturbador porque levanta uma questão que o futebol ainda não sabe bem como responder: até onde queremos que as máquinas decidam por nós?

Durante décadas, a deteção de talento foi um território quase místico, dominado por homens que percorriam campos de terra batida em noites frias, que confiavam na intuição e que construíam reputações à custa de acertos e erros humanos, muito humanos. O olheiro era uma figura quase romanesca dentro do mundo do futebol — alguém que via o que os outros não conseguiam ver. A inteligência artificial não substitui completamente esse olhar, mas comprime o tempo, elimina o acaso geográfico e processa volumes de informação que nenhum ser humano conseguiria analisar sozinho.

O caso de Carreço não é isolado. Em todo o mundo, plataformas como a CUJU, a Wyscout, a StatsBomb ou a SciSports estão a influenciar cada vez mais as decisões de recrutamento dos clubes, desde as academias aos plantéis profissionais. Em Portugal, onde o modelo de negócio assente na formação e revenda de jogadores é uma das principais fontes de receita dos clubes, a adoção destas ferramentas tem crescido de forma silenciosa mas consistente. O Académico de Viseu, ao apostar nesta abordagem, posiciona-se na vanguarda de uma tendência que os grandes clubes europeus já levam muito a sério.

Resta saber, claro, se Pedro Carreço confirmará o que os dados prometeram. A inteligência artificial pode identificar padrões, prever tendências e minimizar riscos — mas não pode garantir o que acontece dentro de campo quando a pressão aperta, quando um jogo está empatado aos 90 minutos ou quando um jovem de 18 anos tem de enfrentar pela primeira vez a exigência do futebol europeu. Isso continua a ser território exclusivamente humano.

Por agora, o central brasileiro joga, cresce e representa, sem o saber, muito mais do que a si próprio. Representa uma geração de jogadores que poderá dever a sua carreira não apenas ao trabalho, ao talento e à sorte — mas também a um algoritmo que, algures num servidor, decidiu que ele merecia uma oportunidade.

O futebol nunca mais será exactamente o mesmo. E talvez isso seja bom. Ou talvez não. Mas é inevitável.

Paulo Poba

Sou um apaixonado por futebol e anime, atualmente no último ano do curso de Ciência da Computação no Instituto Superior da Politécnico da Caaála. Desde cedo, sempre sonhei em ter um espaço dedicado a notícias esportivas, o que me levou a criar minha página em 2016. Desde então, venho me dedicando com afinco, buscando constantemente aprimorar meu conteúdo e alcançar um público cada vez maior. Meu objetivo é tornar minha plataforma uma referência no mundo esportivo, combinando minha paixão pelo esporte com minhas habilidades em tecnologia.

Post a Comment

Previous Post Next Post