MILHARES NAS RUAS DO REINO UNIDO CONTRA O AVANÇO DA EXTREMA DIREITA

 

O Reino Unido acordou no sábado, 28 de Março de 2026, com as suas ruas principais tomadas por um movimento que cresceu ao longo de meses em silêncio, alimentado pela indignação acumulada perante o avanço sem precedentes da extrema direita britânica. A marcha "Juntos Contra a Extrema Direita", convocada por uma aliança que reúne mais de cinquenta organizações da sociedade civil, sindicatos, grupos antirracistas e figuras públicas do mundo da cultura, levou milhares de pessoas ao centro de Londres e a outras cidades britânicas numa demonstração que os organizadores descreveram como a maior mobilização antifascista do país nos últimos anos. A resposta veio da rua. E veio em força.

A iniciativa nasceu de uma campanha lançada no final de 2025 e liderada pela banda irlandesa Fontaines D.C., ao lado de figuras como o músico e produtor Brian Eno e a banda Napalm Death, que fundaram a aliança "Juntos Contra a Extrema Direita" precisamente com o objectivo de preparar uma grande manifestação nacional para Março de 2026. A escolha da data não foi arbitrária: situou-se deliberadamente num momento em que o debate político britânico está dominado pela questão da imigração, em que o partido Reform UK de Nigel Farage continua a crescer nas sondagens, e em que a figura de Tommy Robinson, cujo nome verdadeiro é Stephen Yaxley-Lennon, voltou a dominar o espaço mediático após a maior marcha de extrema direita da história britânica, realizada em Setembro de 2025 em Londres, que reuniu entre 110 000 e 150 000 pessoas segundo estimativas da polícia metropolitana. O contraste entre os números desse evento e os desta resposta antifascista tornou-se, imediatamente, o principal ponto de debate público.

Para compreender a dimensão do que se passa hoje nas ruas britânicas, é indispensável percorrer o caminho que trouxe o país a este ponto de tensão. Em Julho de 2024, um adolescente de 17 anos nascido no País de Gales, filho de pais ruandeses e de religião cristã, esfaqueou mortalmente três crianças durante uma aula de dança em Southport, no norte de Inglaterra, ferindo outras dez. Antes de a polícia poder identificar publicamente o suspeito, perfis de extrema direita nas redes sociais disseminaram informação falsa afirmando que o atacante era um imigrante muçulmano que havia entrado no país ilegalmente. A mentira alastrou com uma velocidade que as autoridades não conseguiram travar. No espaço de horas, motins anti-imigração e anti-islâmicos deflagraram em dezenas de cidades britânicas: mesquitas foram atacadas, hotéis que albergavam requerentes de asilo foram vandalizados e incendiados, veículos da polícia arderam e lojas pertencentes a minorias étnicas foram saqueadas. Foram os piores distúrbios civis do Reino Unido em mais de uma década. Mais de 400 pessoas foram presas, e o primeiro-ministro Keir Starmer classificou os acontecimentos como "violência de extrema direita", prometendo punição exemplar.

Tommy Robinson, a figura mais reconhecida do movimento anti-imigração britânico, promoveu os protestos activamente a partir do exterior do país, disseminando desinformação sobre o atacante de Southport através das suas redes sociais, onde conta com 1,4 milhões de seguidores. Fundador da antiga Liga de Defesa Inglesa e condenado várias vezes por perturbação da ordem pública, Robinson continua a ser o rosto mais visível de um movimento que vai muito além da sua pessoa. Em Setembro de 2025, organizou em Londres aquela que ficou registada como a maior manifestação de extrema direita da história britânica, reunindo entre 110 000 e 150 000 participantes num protesto baptizado "Unir o Reino", apresentado oficialmente como uma marcha pela liberdade de expressão, mas cujo conteúdo foi dominado por slogans anti-imigração, ataques ao primeiro-ministro Starmer e discursos que organizações de direitos humanos classificaram como abertamente islamófobos. No mesmo dia, cerca de 5 000 contra-manifestantes participaram numa marcha antirracista organizada pela Stand Up to Racism. Os cordões policiais foram quebrados, 26 agentes ficaram feridos e 25 pessoas foram detidas. Keir Starmer declarou que o Reino Unido "nunca se renderá" a quem usa a bandeira inglesa como símbolo de violência e divisão.

A manifestação de 28 de Março de 2026 representa o mais ambicioso esforço de resposta civil a este ciclo de mobilização da extrema direita. A aliança que a convocou é deliberadamente plural: inclui sindicatos, associações estudantis, grupos de defesa dos direitos dos refugiados, comunidades religiosas, organizações feministas e figuras da cultura popular britânica que raramente participam em mobilizações políticas desta natureza. A escolha de artistas como o Fontaines D.C. e Brian Eno como rostos da campanha reflecte uma estratégia consciente de alargamento da base social do protesto para além dos sectores politicamente já convencidos. A mensagem central da aliança é que a extrema direita não é um fenómeno marginal ou inevitável, mas o produto de escolhas políticas e de um ecossistema de desinformação que pode e deve ser contrariado na rua, nas urnas e no debate público.

O contexto político que rodeia esta mobilização é de extrema volatilidade. O Reform UK de Nigel Farage, partido anti-imigração e eurocéptico, tem crescido de forma consistente nas sondagens britânicas desde as eleições gerais de Julho de 2024, tornando-se uma ameaça eleitoral real ao Partido Trabalhista de Starmer, que ganhou o poder com uma maioria histórica mas viu a sua popularidade deteriorar-se rapidamente. A pressão política que a ascensão do Reform UK exerce sobre o governo trabalhista é visível na linguagem cada vez mais restritiva adoptada por Starmer em matéria de imigração: o primeiro-ministro prometeu um "Comando de Segurança Fronteiriça" para transformar o país num "território hostil" para os traficantes de pessoas, e a sua retórica sobre os "barcos pequenos" que transportam migrantes pelo Canal da Mancha aproximou-se progressivamente da utilizada pela direita e pela extrema direita. Críticos do governo, incluindo figuras da ala esquerda do próprio Partido Trabalhista, argumentam que esta estratégia de imitar a retórica da direita sobre imigração legitima o discurso da extrema direita em vez de o desafiar.


A Polícia Metropolitana anunciou que autorizou a realização de uma nova marcha liderada por Tommy Robinson no centro de Londres a 16 de Maio de 2026, com acesso sem precedentes a espaços como Trafalgar Square, Whitehall e Parliament Square. A decisão gerou imediata controvérsia: a data coincide com o Dia Nakba, a data anual de memória do deslocamento dos palestinianos em 1948, e a autorização foi descrita por organizações antirracistas como um sinal profundamente preocupante de legitimação institucional da extrema direita. Organizações como a Counterfire e a Stand Up to Racism anunciaram já contramanifestações para o mesmo dia.

O debate que o Reino Unido enfrenta em 2026 não é apenas sobre imigração. É sobre que tipo de sociedade o país quer ser, sobre os limites da liberdade de expressão quando esta é instrumentalizada para disseminar ódio, e sobre a responsabilidade das plataformas digitais que permitem a amplificação de desinformação com consequências físicas e humanas documentadas. A marcha de sábado não vai resolver nenhuma destas questões. Mas coloca no espaço público uma resposta que a extrema direita esperava não ver: a de que o silêncio da maioria não é consentimento, e de que há, no Reino Unido, uma cidadania disposta a sair à rua para dizer que não.

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