A POBREZA AMPLIFICA O VENENO DO AR — E A EUROPA É A PROVA DISSO

 

Respirar o mesmo ar não significa correr os mesmos riscos. É esta a conclusão fundamental de um estudo publicado na revista científica Nature em Março de 2026, que demonstra, com uma clareza perturbadora, que a poluição atmosférica mata muito mais nas regiões europeias mais pobres do que nas mais ricas — mesmo quando os níveis de contaminação registados são praticamente idênticos. O problema não é apenas o ar. É também quem o respira, em que condições vive e que sistemas de protecção tem à sua disposição.

A investigação foi liderada por Zhaoyue Chen, do Instituto de Saúde Global de Barcelona, conhecido pela sigla ISGlobal — um dos centros de investigação epidemiológica mais respeitados da Europa —, em parceria com equipas internacionais especializadas em saúde ambiental e epidemiologia. Os investigadores analisaram dados de dezasseis anos, entre 2003 e 2019, abrangendo centenas de regiões europeias, e cruzaram os registos de mortalidade com os níveis de exposição a três dos poluentes mais nocivos para a saúde humana: as partículas finas PM2,5, as partículas PM10 e o dióxido de azoto. O resultado foi uma cartografia da injustiça ambiental europeia, traçada com rigor estatístico.

As conclusões são inequívocas. As regiões europeias com maior incidência de pobreza, menor esperança de vida à nascença e menor adopção de energias renováveis apresentam os riscos de mortalidade mais elevados associados à poluição do ar. Em casos concretos, esse risco chega a ser o dobro do registado nas regiões com melhores condições socioeconómicas. As regiões do Norte e do Oeste da Europa — com economias mais prósperas, sistemas de saúde mais robustos e uma transição energética mais avançada — apresentam os índices mais favoráveis. As regiões do Sul e, sobretudo, do Leste europeu, ficam substancialmente atrás, com valores que, em algumas zonas, escalam para o dobro do risco de mortalidade atribuível à poluição atmosférica.

Zhaoyue Chen, primeiro autor do estudo, foi directo na explicação do mecanismo subjacente: "Não se trata apenas de as regiões mais pobres serem mais poluídas." O investigador sublinhou que as regiões com maior riqueza tendem a dispor de sistemas de saúde melhor equipados, programas de saúde pública mais abrangentes, maior consciência social dos efeitos da poluição do ar e maior capacidade para aplicar e fiscalizar políticas ambientais eficazes. Em outros termos: mesmo quando dois cidadãos europeus respiram ar com o mesmo grau de contaminação, aquele que vive numa região mais pobre tem menos probabilidade de ser diagnosticado atempadamente, menos acesso a tratamento especializado e menos recursos institucionais para o proteger. A desigualdade socioeconómica funciona, neste contexto, como um amplificador silencioso da toxicidade do ar.

Os dados mostraram também que a evolução ao longo das duas décadas estudadas foi profundamente desigual. As regiões mais ricas da Europa registaram melhorias substanciais e contínuas nos riscos de mortalidade associados às PM2,5, às PM10 e ao dióxido de azoto entre 2003 e 2019. As regiões com menor rendimento ou menor esperança de vida registaram apenas pequenas melhorias — e, em alguns casos, os riscos de mortalidade associados a estes poluentes chegaram mesmo a aumentar ao longo do período em análise. A distância entre os dois grupos de regiões não está, portanto, a diminuir. Em certos domínios, está a crescer.

Um dos factores identificados como determinante para esta divergência é a estrutura do sistema energético de cada região. As regiões que continuam a depender fortemente de combustíveis fósseis — carvão, petróleo e gás — ficam expostas a uma mistura mais ampla e mais variada de substâncias nocivas, que inclui partículas ultrafinas e metais pesados com capacidade de provocar danos biológicos muito mais severos do que as partículas mais grossas habitualmente monitorizadas. As regiões da Europa de Leste, em particular, dependeram historicamente de financiamento externo para a modernização das suas infraestruturas e continuam numa fase inicial de integração de energias renováveis e de implementação de medidas de controlo da poluição — o que as deixa estruturalmente mais expostas aos efeitos desta crise silenciosa.

As patologias em causa são múltiplas e de gravidade significativa. A exposição prolongada à poluição do ar está associada ao aumento do risco de doença cardíaca isquémica, acidente vascular cerebral, hipertensão arterial, doença pulmonar obstrutiva crónica, cancro do pulmão, depressão e, de acordo com investigação mais recente, doença de Alzheimer. As partículas finas PM2,5, com diâmetro inferior a 2,5 micrómetros, são suficientemente pequenas para penetrar profundamente nos pulmões e entrar directamente na corrente sanguínea, causando inflamação sistémica e danos em múltiplos órgãos. A Agência Europeia do Ambiente estimou, num relatório publicado em Dezembro de 2025, que níveis inseguros de poluição do ar estiveram na origem de 182 000 mortes na União Europeia apenas em 2023. Um número que equivale a uma cidade de média dimensão desaparecida por completo — todos os anos, em silêncio.

Para Portugal, o estudo chega com pertinência particular. O país apresenta níveis médios de exposição a partículas finas cerca de 1,7 vezes superiores ao limiar de referência definido pela Organização Mundial da Saúde — uma concentração de 8,3 microgramas por metro cúbico, face ao valor de referência de 5 microgramas. Embora Portugal se situe num patamar intermédio no contexto europeu — melhor do que a Itália, a Hungria ou a Roménia, mas acima do recomendável —, as diferenças internas entre regiões do litoral e do interior, entre zonas industriais e rurais, e entre populações com rendimentos distintos, espelham exactamente o padrão descrito pelo estudo: os mais vulneráveis economicamente são também os mais expostos aos efeitos letais da poluição do ar.

O contexto regulatório europeu encontra-se em transformação, mas a um ritmo que os investigadores consideram insuficiente. Em Março de 2024, as instituições da União Europeia chegaram a um acordo político sobre novas normas de qualidade do ar que visam aproximar os limites europeus dos limiares de referência da Organização Mundial da Saúde — que são consideravelmente mais exigentes do que os padrões actualmente em vigor na maioria dos Estados-membros. O Pacto Ecológico Europeu estabeleceu ainda uma meta para 2030 de redução das mortes prematuras causadas por partículas finas em pelo menos 55%, em comparação com os níveis de 2005. No entanto, em 2022, apenas dezasseis dos vinte e sete Estados-membros da União Europeia cumpriram os seus compromissos nacionais de redução de emissões para pelo menos um dos cinco principais poluentes atmosféricos regulados. Os restantes onze falharam pelo menos num deles.

O estudo apela explicitamente a que as políticas de qualidade do ar deixem de ser tratadas como políticas ambientais neutras e passem a ser encaradas como políticas de saúde com uma dimensão de equidade social incontornável. Quantificar os riscos de mortalidade região a região, e cruzá-los com indicadores socioeconómicos, permite identificar com muito maior precisão as populações mais vulneráveis — e dirigir para elas os recursos e as intervenções de forma prioritária. A mensagem central do estudo é, no fundo, uma recusa da ideia de que a poluição do ar é uma fatalidade igualmente distribuída. Não é. Afecta mais quem tem menos. E essa diferença não é acidente — é estrutura.

O ar que respiramos é o mesmo para todos. As condições em que o respiramos não são. E enquanto essa assimetria persistir, a promessa europeia de saúde igual para todos os cidadãos continuará a ser, nas regiões mais pobres do continente, uma promessa por cumprir.

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