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| Ronaldinho durante a sua passagem pelo Paris Saint-Germain entre 2001 e 2003, período marcado por conflitos com o treinador Luis Fernandez |
Documentário da Netflix revela bastidores da passagem conturbada do brasileiro pelo clube francês, com festas, insubordinação e rancor que permanece 20 anos depois
A relação entre Ronaldinho Gaúcho e o Paris Saint-Germain foi tudo menos pacífica. Um documentário que estreia na Netflix a 16 de abril, intitulado “O Homem Mais Feliz do Mundo”, expõe os bastidores da passagem do craque pelo clube francês entre 2001 e 2003 .
Luis Fernández, treinador do PSG na época, revela comportamentos que até hoje poucos conheciam. “Pessoas que trabalhavam no mundo da noite diziam-me que ele saía para festejar na véspera dos jogos. E que regressava às 6h00 ou 7h00 da manhã, deitando-se ao amanhecer”, recorda o técnico franco-hispânico .O documento de 2008 já antecipava o ambiente de tensão. Fernández lançou um livro de memórias onde acusava Ronaldinho de ser individualista, descurar a alimentação e levar mulheres para o quarto durante as concentrações da equipa .
Os números da passagem de Ronaldinho pelo PSG são concretos: 77 jogos, 25 golos marcados e apenas um título da Taça Intertoto em 2001 . Longe do que o talento do brasileiro prometia quando chegou de França vindo do Grêmio, com apenas 21 anos.
A crise de autoridade entre jogador e treinador atingiu o seu auge em outubro de 2002. Numa partida contra o Boavista, pela Taça UEFA, Ronaldinho desautorizou Fernández em campo. Ao perceber que seria substituído, o brasileiro fez sinal com o dedo indicador de que não sairia. O técnico, perplexo, teve de optar por outro jogador .
“Não sei o que tinha na cabeça no momento da substituição”, disse Luis Fernández, após o jogo, tentando conter os danos de um episódio que expunha publicamente a fractura interna .
Na mesma época, o técnico já demonstrava preocupação pública com o comportamento do jogador. “Conversei com Ronaldinho porque não quero que ele perca a calma em campo tão facilmente. Vejam Zidane, Beckham ou Figo. Eles nunca dizem nada”, afirmou Fernández em outubro de 2002, em declarações ao jornal L’Equipe .
O presidente do PSG à época, Laurent Perpère, descreve o jovem Ronaldinho como “muito infantil” e ainda a “descobrir o mundo”. “Era comovente. Lembro-me de uma vez em que ele nos perguntou se tinha dinheiro suficiente para comprar um frigorífico”, recorda Perpère .
Vinte anos depois, o rancor permanece do lado do jogador. No documentário da Netflix, Ronaldinho recusa-se sequer a pronunciar o nome do treinador. “Laurent Perpère foi uma figura paternal para mim. Tenho muitas coisas boas a dizer sobre ele. O outro? Não tenho nada a dizer”, diz o brasileiro, com um sorriso .
Fernández, por seu lado, garante que tentou proteger o jogador e que a sua exigência visava o crescimento do atleta. “Sou como um grande irmão e seria um tolo de ficar sem um jogador como ele, que tem potencial para se tornar o melhor jogador do mundo em dois ou três anos”, disse o técnico em 2002 .
O desfecho é conhecido. Ronaldinho deixou o PSG em 2003 e assinou pelo Barcelona, onde conquistou a Liga dos Campeões (2005/06), dois campeonatos espanhóis e foi eleito duas vezes Melhor do Mundo pela FIFA (2004 e 2005) . O brasileiro admite, contudo, um arrependimento: “A minha pior lembrança foi não ter ficado mais tempo”, afirmou em entrevista ao canal “Le Media Carré” .
