PORTUGAL FORA DO ALCANCE DOS MÍSSEIS IRANIANOS — MAS A AMEAÇA PODE CHEGAR DE OUTRA FORMA

Numa Europa em estado de alerta crescente, Portugal surge como um dos pouquíssimos países do continente que, pelo menos por agora, escapa ao raio de acção dos mísseis iranianos. Enquanto Londres, Paris, Berlim, Madrid e Roma figuram na lista de capitais potencialmente vulneráveis, Lisboa mantém-se fora do alcance directo de Teerão. Mas os especialistas avisam: a segurança geográfica não significa imunidade total.

A confirmação desta realidade ganhou contornos mais precisos após o ataque iraniano à base militar conjunta dos Estados Unidos e do Reino Unido na ilha de Diego Garcia, no Oceano Índico, a 21 de Março. O Irão lançou dois mísseis balísticos de alcance intermédio capazes de percorrer cerca de 4.000 quilómetros, um dado que alterou de forma significativa o mapa estratégico europeu. Com esse alcance, o raio de acção iraniano passa a abranger grande parte do sul e centro da Europa, incluindo cidades como Paris, Berlim, Bruxelas e Munique. Apenas Portugal, a Irlanda e a Islândia ficam fora dessa zona, graças à distância de entre 4.000 e 5.000 quilómetros que separa Lisboa de Teerão.

O coronel Mendes Dias, em declarações à Euronews, explicou com precisão cirúrgica a condição em que Portugal poderia entrar dentro desse raio de ameaça. O território português só ficaria vulnerável se o Irão deslocalizasse os seus sistemas de lançamento para o Iraque e, a partir daí, iniciasse uma eventual investida contra Lisboa. Um cenário que, para já, permanece no domínio da especulação mas que os analistas não descartam por completo num conflito que tem escalado semana após semana com uma velocidade preocupante.

A questão da vulnerabilidade portuguesa é, no entanto, mais complexa do que a simples distância geográfica sugere. O Irão declarou formalmente que trata Portugal como um inimigo, após Lisboa exprimir solidariedade à Turquia na sequência do ataque iraniano com mísseis sobre o Mediterrâneo oriental e de Portugal ter activado o Mecanismo Europeu de Protecção Civil no contexto do conflito. O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, foi explícito ao afirmar que as forças armadas do seu país consideram alvos legítimos os locais a partir dos quais foram conduzidas operações norte-americanas e israelitas, uma definição que pode incluir bases militares da NATO em território português ou nas proximidades.

João Annes, especialista do Observatório de Segurança e Defesa da SEDES, tentou colocar o tema em perspectiva sem ignorar os riscos reais. O analista reconheceu que Portugal passou a ser tratado como inimigo por Teerão, mas sublinhou que o país não é um alvo prioritário, existindo em toda a Europa alvos muito mais apetecíveis para o regime iraniano. A ameaça mais plausível e imediata não seria um ataque cinético directo, mas sim acções de natureza terrorista ou cibernética, áreas em que o Irão tem demonstrado capacidade e vontade de actuar contra estados ocidentais que considera hostis. O major-general Agostinho Costa, especialista em geopolítica e estratégia, reforçou este ponto ao afirmar que todas as cidades europeias até Paris estão já dentro do alcance dos mísseis iranianos, um dado que muda por completo o equilíbrio estratégico no continente.

O conflito entre Israel e o Irão, que entrou numa nova fase com a Operação Leão Rugindo em Junho de 2025, continua a escalar sem sinais claros de desaceleração. Os Estados Unidos mantêm pressão sobre Teerão, tendo Donald Trump fixado um prazo de cinco dias para progressos nas negociações antes de novas represálias. O bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irão já fez disparar o preço do petróleo para mais de 79 dólares por barril, com impacto directo nas economias europeias incluindo a portuguesa. A guerra que parecia distante está, afinal, a chegar mais perto do que muitos gostariam de admitir.

Portugal está fora do alcance directo. Mas o mundo em que vivemos está cada vez mais perto do ponto de ruptura.

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