A questão já não é tabu em Madrid. Nos corredores de Valdebebas, nas páginas dos jornais espanhóis e nas conversas dos adeptos merengues, o debate instalou-se com uma força que já não é possível ignorar: o Real Madrid joga melhor sem Kylian Mbappé? Os resultados das últimas semanas sugerem que sim — e Brahim Díaz tem sido a prova viva disso.
O dérbi de Madrid frente ao Atlético, vencido de forma dramática por 3-2, contou com Mbappé no banco de partida por decisão assumida de Álvaro Arbeloa. No seu lugar, Brahim Díaz arrancou no onze ao lado de Vinícius Júnior, numa aposta que o técnico merengue justificou com a continuidade da excelente exibição do espanhol-marroquino na goleada ao Manchester City, que valeu a passagem aos quartos-de-final da Liga dos Campeões. O resultado deu razão ao treinador, com o Real Madrid a somar uma vitória de enorme importância na LaLiga e a aproximar-se a quatro pontos do líder Barcelona.
Arbeloa não escondeu a sua satisfação com a exibição de Brahim. "O Brahim foi incrível. Não é fácil substituir o Mbappé, mas ele fez um trabalho extraordinário. Defensiva e ofensivamente, fez tudo o que lhe pedimos", afirmou o técnico em conferência de imprensa, numa declaração que, dita pelo treinador do Real Madrid, soa quase a uma sentença sobre a titularidade do francês. Palavras que fazem eco em toda a Espanha.
Os números de Brahim Díaz nesta temporada contam uma história de resiliência e reinvenção. Em 31 jogos pela LaLiga e Liga dos Campeões, o extremo de 26 anos acumula um golo e quatro assistências, mas a frieza estatística esconde o impacto real que tem tido nos momentos decisivos. Frente ao Rayo Vallecano, entrou e criou os dois golos da vitória na ausência de Bellingham. Frente ao Valencia, voltou a entrar e decidiu com uma assistência que permitiu a Mbappé marcar. Frente ao Manchester City no Etihad, foi titular e foi dos melhores em campo numa noite histórica para o clube. A regularidade nos momentos que mais importam é a sua maior qualidade — e Arbeloa claramente não o ignora.
O contexto da sua ascensão é tanto mais impressionante quanto se conhece o seu passado recente. Brahim regressou ao Real Madrid com a sombra enorme do penálti falhado na final da CAN com Marrocos, uma falha que custou à sua selecção o título mais desejado em 50 anos de espera. Em vez de se deixar afundar pela pressão, o jogador natural de Málaga respondeu dentro de campo com um futebol que faz esquecer qualquer fracasso anterior. A sua capacidade de revolucionar jogos a partir do banco e a sua versatilidade — podendo actuar na ala esquerda, na ala direita ou como número 10 — tornam-no numa peça de valor incalculável para as ambições merengues.
Do lado de Mbappé, a situação é cada vez mais difícil de ignorar. O avançado francês foi contratado pelo Real Madrid como o jogador que viria liderar um novo ciclo, mas a temporada tem sido marcada por lesões, inconsistência e, nas últimas semanas, pela incómoda percepção de que a equipa funciona melhor sem ele no onze. Quando entrou no dérbi, nos minutos finais, o seu contributo foi praticamente nulo — e a imprensa espanhola não perdoou. O Borussia Dortmund já manifestou interesse na sua contratação para o verão, o que, por si só, é revelador do ambiente que se vive em torno do francês.
A questão não tem resposta fácil. Mbappé é um dos melhores jogadores do mundo quando está no seu nível máximo, e o Real Madrid sabe que o pode precisar nas grandes noites europeias que se aproximam. Mas enquanto Brahim Díaz continuar a mostrar o que tem mostrado, Arbeloa terá cada vez mais dificuldade em justificar a titularidade automática do francês. O futebol não respeita nomes — respeita quem decide. E por agora, quem decide em Madrid chama-se Brahim.
