EUROPA CONSOME ANTIBIÓTICOS A UM RITMO QUE AMEAÇA A MEDICINA MODERNA

Existe uma crise silenciosa a instalar-se nos sistemas de saúde europeus, invisível a olho nu mas com consequências que os especialistas comparam, em gravidade e irreversibilidade, às das alterações climáticas para o ambiente. O consumo excessivo de antibióticos em toda a Europa continua a crescer, as metas definidas pela União Europeia estão longe de ser cumpridas, e as bactérias, ao ritmo actual, estão a tornar-se resistentes a medicamentos que durante décadas foram a última linha de defesa da medicina contra infecções que, sem tratamento eficaz, voltam a ser mortais. Os dados mais recentes do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças, o ECDC, publicados em Novembro de 2025, traçam um retrato preocupante e geograficamente revelador de como a Europa está a falhar neste combate.

Em toda a União Europeia, em 2024, as pessoas tomaram em média 20,3 doses diárias de antibióticos por cada mil habitantes. Trata-se de um valor 2% acima dos níveis de referência anteriores à pandemia de Covid-19, registados em 2019, e significativamente acima da meta estabelecida pelo Conselho Europeu para 2030, fixada em 15,9 doses diárias por mil habitantes. A distância entre o ponto em que a Europa se encontra e o ponto onde deveria estar é de tal ordem que o ECDC alertou formalmente, num relatório de Novembro de 2025, que o bloco não cumpriu nenhum dos objectivos definidos para a redução do consumo de antimicrobianos. A agência descreveu o progresso como "fraco" e exigiu um reforço urgente dos esforços em todos os níveis dos cuidados de saúde, da prescrição médica ao comportamento individual do doente.

A variação geográfica dentro da Europa é vasta e esclarecedora. No topo do ranking dos maiores consumidores europeus de antibióticos estão países do Sul e do Leste do continente. A Grécia lidera com 29,9 doses diárias por mil habitantes, um valor quase três vezes superior ao dos Países Baixos, o país com o consumo mais baixo de toda a União Europeia, com apenas 9,8 doses diárias por mil habitantes. Esta diferença de três para um entre os dois extremos do ranking europeu é, em si mesma, uma demonstração de que o consumo de antibióticos não é uma consequência inevitável da prevalência de doenças infecciosas, mas o resultado de escolhas culturais, sistemas de prescrição, políticas de saúde pública e graus de literacia médica radicalmente distintos. A Roménia surge em segundo lugar no ranking dos maiores consumidores, com 25,7 doses diárias por mil habitantes, seguida de Chipre com 25, de acordo com dados anteriores do ECDC, e da Bulgária com 24,4. A França, quinta maior economia da Europa, aparece com 21,5, e a Polónia com 20,2, ambas acima da média europeia de forma persistente.

A análise da tendência temporal torna o cenário ainda mais preocupante. Desde 2020, o uso de antibióticos aumentou em quinze países europeus: Áustria, Bélgica, Croácia, Estónia, Finlândia, França, Islândia, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Países Baixos, Noruega, Portugal, Eslovénia e Espanha. A listagem inclui alguns dos países com melhores sistemas de saúde do mundo, o que demonstra que o excesso de consumo de antibióticos não é um problema exclusivo de países com recursos limitados ou com sistemas de saúde precários, mas uma questão transversal que afecta igualmente economias desenvolvidas com capacidade técnica e financeira para o combater. Evelyne Jouvin Marche, investigadora que coordena a vigilância do consumo de antimicrobianos no ECDC, explicou a razão desta persistência: "Demora até que as orientações oficiais de saúde cheguem a hospitais, médicos, clínicas e doentes, e alguns países vão mais adiantados nesse esforço do que outros."

Portugal insere-se de forma preocupante neste quadro europeu. O consumo de antibióticos em território nacional cresceu 8% entre 2019 e 2024, um ritmo quatro vezes superior à média da União Europeia no mesmo período. A dispensa de antibióticos nas farmácias comunitárias subiu de uma média de 18 doses habitante-dia em 2023 para 19 em 2024, valor que em dados preliminares do primeiro semestre de 2025 apresentou uma ligeira descida para 18,8. Em número absoluto de embalagens, o crescimento é igualmente expressivo: de 7.963.253 embalagens dispensadas em 2022 passou-se para 8.681.278 em 2023, um crescimento de 9%, e para 9.441.028 em 2024, mais 8,8%. Até Outubro de 2025 foram já dispensadas 7.175.487 embalagens, e a Associação Nacional de Farmácias assinala que o período de maior procura se concentra nos meses de inverno, entre Dezembro e Março, coincidindo com o aumento das infecções respiratórias. No ambiente hospitalar, o cenário é igualmente preocupante: o consumo correspondeu a 1,7 doses habitante-dia em 2023, subindo para 1,8 em 2024. O Infarmed reconhece que Portugal deverá atingir em 2030 uma redução do consumo total de antibióticos de apenas 9% face a 2019, menos de metade dos 20% estabelecidos como meta pelo Conselho Europeu para todos os Estados-membros.

As implicações desta trajectória vão muito além das estatísticas de saúde pública. A resistência aos antibióticos desenvolve-se quando as bactérias são expostas com frequência a estes medicamentos e aprendem, através de mecanismos de evolução natural, a sobreviver à sua acção. Quando isso acontece, as infecções que seriam anteriormente tratadas com um antibiótico simples e barato tornam-se intratáveis, exigindo fármacos de última linha mais dispendiosos, mais tóxicos e frequentemente menos eficazes. O ECDC estima que mais de 35 000 pessoas morram anualmente na União Europeia como resultado de infecções causadas por bactérias resistentes aos antibióticos disponíveis, e que o número de infecções deste tipo continue a crescer. Um relatório publicado na revista The Lancet estimou que, globalmente, a resistência antimicrobiana foi directamente responsável por 1,27 milhões de mortes em 2019, tendo contribuído para cerca de cinco milhões de mortes adicionais. As projecções para 2050, caso as tendências actuais se mantenham sem intervenção eficaz, apontam para 10 milhões de mortes anuais atribuíveis à resistência antimicrobiana, superando o cancro como causa de morte global.

A resistência antimicrobiana não é apenas uma ameaça futura abstracta: já chegou aos hospitais europeus sob formas concretas e assustadoras. O fungo Candidozyma auris, resistente a múltiplos antifúngicos, está a espalhar-se pelos hospitais europeus a um ritmo crescente, com casos documentados em Portugal e em pelo menos vinte países europeus. A sua taxa de mortalidade em doentes imunocomprometidos pode ultrapassar os 60%, e a sua capacidade de sobreviver em superfícies hospitalares por semanas torna extremamente difícil o controlo da sua disseminação. A Klebsiella pneumoniae produtora de carbapenemases, resistente aos antibióticos de último recurso, é outro exemplo que ilustra para onde o fenómeno pode conduzir se o consumo excessivo e inadequado de antibióticos não for travado.

As causas do consumo excessivo são múltiplas e interligadas. A pressão dos doentes e das famílias sobre os médicos para prescrever antibióticos, mesmo quando a infecção é de origem viral e, portanto, não responde a este tipo de medicamento, é um factor persistente em muitos países europeus. Em Portugal, estudos de literacia em saúde documentam que uma percentagem significativa da população continua a acreditar que os antibióticos são eficazes contra vírus como o da gripe ou do constipado, o que alimenta a procura inadequada. A facilidade de acesso a antibióticos sem receita médica em farmácias de alguns países do Sul e do Leste europeu contribui adicionalmente para o problema. Do lado dos prescritores, as pressões de tempo nas consultas, a incerteza diagnóstica face a infecções mistas e a cultura de precaução que leva ao tratamento profiláctico desnecessário são factores que os estudos de comportamento médico identificam sistematicamente.

O Conselho da União Europeia aprovaria em Junho de 2023 uma recomendação ambiciosa, denominada "Uma Só Saúde", que estabelece como metas para 2030 a redução de 20% do consumo total de antibióticos em humanos, a garantia de que pelo menos 65% dos antibióticos utilizados correspondem a tratamentos de primeira linha e uma redução de 15% das infecções com bactérias multirresistentes. Dois anos e meio depois, a avaliação do ECDC é clara: nenhuma destas metas está a ser cumprida no conjunto da União Europeia. O caminho a percorrer é mais longo do que os calendários políticos permitem admitir confortavelmente, e a janela de tempo para evitar um cenário em que algumas das infecções mais comuns voltem a ser intratáveis está a estreitar-se a cada ano que passa sem progresso suficiente.

O que os dados do ECDC, do Infarmed e de décadas de investigação microbiológica tornam incontornável é uma realidade que a medicina conhece bem mas que a sociedade ainda não interiorizou plenamente: os antibióticos são um recurso finito. Não no sentido de que as fábricas deixem de os produzir, mas no sentido de que, à medida que as bactérias desenvolvem resistência a cada geração de fármacos, o repertório de medicamentos eficazes vai-se esgotando, um por um. E o ritmo a que isso está a acontecer é determinado, em grande medida, por cada receita médica desnecessária, por cada antibiótico tomado sem prescrição e por cada tratamento interrompido antes do fim. Decisões individuais com consequências colectivas que podem, literalmente, mudar o curso da medicina moderna.


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