CAIADO É O ESCOLHIDO: PSD LANÇA O GOVERNADOR DE GOIÁS NA CORRIDA PRESIDENCIAL DE 2026


A corrida eleitoral brasileira de 2026 ganhou esta segunda-feira, 30 de Março, um novo protagonista oficial. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, do PSD, foi escolhido pelo presidente da legenda, Gilberto Kassab, como o candidato do partido à Presidência da República, encerrando semanas de incerteza interna e consolidando um movimento que ganhou força decisiva com a desistência do governador do Paraná, Ratinho Júnior, da disputa presidencial. O lançamento oficial da pré-candidatura está marcado para as 16 horas desta segunda-feira, na sede do PSD, no centro de São Paulo, numa cerimónia que marca a entrada formal do partido na corrida ao Palácio do Planalto com um nome de perfil claramente identificado com a direita do espectro político brasileiro.

A chegada de Caiado a este momento é o resultado de um percurso de articulação política que dura vários meses. O governador goiano, de 76 anos, anunciou a sua intenção de se filiar ao PSD a 27 de Janeiro de 2026, após deixar o União Brasil, partido onde a sua perspectiva de candidatura presidencial estava, nas suas próprias palavras, "limitada" pela falta de apoio a uma candidatura própria. A filiação foi oficializada a 14 de Março, e desde esse momento a pressão interna para que o partido o escolhesse formalmente foi crescendo de forma irreversível. A condição que Kassab lhe garantiu para a filiação foi a mais directa possível: o PSD teria candidato à Presidência nas eleições de Outubro de 2026. "Estarei junto a um partido que terá um candidato à República", confirmou Caiado à CNN Brasil após oficializar a sua entrada na legenda.

O processo de escolha interna do PSD foi, porém, marcado por uma disputa que expôs as tensões ideológicas do partido. A legenda dispunha de dois perfis presidenciais claramente distintos: Caiado, mais à direita, com bandeiras fortes na segurança pública e no agronegócio, e Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, com um perfil de centro que parte da cúpula considerava mais adequado para construir alianças mais amplas. O pêndulo inclinara-se inicialmente para Ratinho Júnior, governador do Paraná e considerado o favorito de Kassab, combinando experiência de gestão com posicionamento de centro-direita que satisfazia as diferentes sensibilidades internas. Mas na semana passada, Ratinho Júnior anunciou a sua desistência após reflexão com a família, alegando o compromisso com o eleitorado paranaense e a necessidade de gerir a sua sucessão no governo do Paraná nas eleições de Outubro. A sua saída reorganizou o cenário de forma decisiva: "O partido não vai conseguir se livrar dele", disse uma fonte com trânsito na cúpula do PSD ao Estadão, referindo-se a Caiado.

Eduardo Leite reagiu com inusitada agressividade ao acordo que se costurava entre Kassab e Caiado, elevando o tom na semana passada ao se auto-proclamar o "único pré-candidato de centro" do partido, numa declaração que os bastidores interpretaram como uma tentativa de última hora de inverter o processo. Não resultou. Kassab acelerou a definição, em parte porque o prazo legal de desincompatibilização obrigava Caiado a deixar o governo de Goiás até 4 de Abril, seis meses antes do primeiro turno, tornando urgente uma definição que evitasse prolongar o impasse. O próprio Ratinho Júnior saiu publicamente em apoio à escolha de Caiado esta manhã: "A definição do partido pelo governador de Goiás, Ronaldo Caiado, reforça que a legenda apostou num homem aprovado como gestor, com trabalho reconhecido nacionalmente, sobretudo em áreas vitais como educação e segurança", declarou o paranaense. Leite, por seu lado, afirmou que deverá permanecer no governo do Rio Grande do Sul até ao final do segundo mandato, descartando ainda a hipótese de disputar o Senado.

Do ponto de vista biográfico, Caiado é uma das figuras mais longevas e mais consistentes da direita brasileira. Médico ortopedista de formação, foi candidato à Presidência pela primeira vez em 1989, na primeira eleição presidencial com voto directo após a redemocratização, como líder da União Democrática Ruralista, a UDR, organização rural que polarizou o debate político da época. Três décadas e meia depois, regressa ao centro da cena nacional com um currículo que inclui múltiplos mandatos no Congresso e dois mandatos como governador de um dos estados de maior crescimento económico do país. Caiado foi eleito governador de Goiás em 2018 com 73,2% dos votos no segundo turno, reeleito em 2022 com mais de 66%, números que reflectem uma popularidade estadual que os seus apoiantes argumentam poder ser transferida para o plano nacional. A sua reputação como gestor em áreas como segurança pública e infraestrutura, combinada com a associação ao agronegócio que representa uma fatia crescente do poder económico e político brasileiro, constituem os pilares da sua estratégia presidencial.

Os desafios que aguardam Caiado são, no entanto, de escala diferente da que conheceu em Goiás. As pesquisas eleitorais de âmbito nacional apresentam-no com apenas 4% das intenções de voto, tecnicamente empatado com Eduardo Leite nos levantamentos da Quaest e do Datafolha. Em cenários de primeiro turno testados até agora, Lula aparece com 39% e Flávio Bolsonaro com 33%, deixando a totalidade dos candidatos de terceira via a disputar uma fatia marginal do eleitorado num ambiente de forte polarização. Kassab foi explícito ao afirmar que as pesquisas não seriam o critério principal da escolha, mas os números colocam a dimensão real do desafio que o PSD enfrenta ao tentar construir uma candidatura competitiva fora dos dois pólos que dominam a política brasileira desde 2018. A pré-candidatura ainda precisará de ser confirmada na convenção partidária prevista para o meio do ano, e as articulações para a formação da chapa estão por iniciar. Kassab chegou a mencionar publicamente o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, do Novo, como um "excelente vice", sugerindo uma possível aliança de centro-direita que ampliaria geograficamente a base da candidatura.

A escolha de Caiado tem uma consequência política imediata que transcende o PSD: empurra a legenda para um perfil ideológico mais marcado do que Kassab inicialmente desejava, numa aposta que prioriza a coerência programática sobre a versatilidade de alianças. Um candidato mais ao centro, como Leite, teria mais facilidade em construir pontes com forças moderadas do espectro político e com empresários que hesitam perante a polarização. Caiado, com as suas posições mais marcadas em segurança pública, soberania nacional e costumes, disputa mais directamente com Flávio Bolsonaro o eleitorado de direita, num campo que a família Bolsonaro tem demonstrado ser capaz de mobilizar com eficácia. O xadrez de 2026 ganhou esta segunda-feira uma peça nova e importante no tabuleiro. O jogo, porém, está apenas a começar.

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